Day Leclaire - Comit Cupido
Sabrina Noivas 140 - The Whirlwind Wedding
 

Sua nica chance era propor 1 desafio...Assistir ao casamento de sua melhor amiga teria sido 1 dos momentos mais felizes da vida de Emma...no fosse a insistente presena de Gray Shaw na cerimnia. E ainda ao seu lado! Afinal, quando ser que Gray desistiria de tentar convenc-la a se casar com ele?! Bem, a nica maneira que Emma encontrou para faz-lo renunciar daquela loucura foi propondo 1 desafio impossvel...desafio esse que ele no deveria obter sucesso!

Digitalizao e correo: Nina

Srie Wedded Blitz (Comit Cupido)
Ordem	Ttulo	Ebooks	Data
1	The Provocative Proposal
Sab.Noivas 128 - Uma Grande Paixo 	Aug-20012	The Whirlwind Wedding
Sabrina Noivas 140 - Comit Cupido	Sep-20023	The Baby Bombshell
Julia 1223 - Ele Tinha Que Ser Meu	Nov-2002

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2002
Publicao original: 2002
Gnero: Romance contemporneo
 Estado da Obra: Corrigida



PRLOGO
Seattle, Washington
Pode falar para o comit. Grayson Shaw colocou-se sob o feixe de luz que se contrapunha  escurido da sala. Usando a mo para proteger os olhos, voltou-se para uma das seis silhuetas sentadas atrs de uma grande mesa de reunies.
	 voc, Shadoe?
Um suspiro impaciente soou na sala escura.
	No devia usar nossos nomes  respondeu a voz sria.  Ainda no entendeu? Este  um comit secreto.
Gray encolheu os ombros.
	Como Shadoe no  seu nome verdadeiro, sua identidade est protegida. Se eu o chamasse de Tom Smith, em vez de usar seu nome do meio...
	Gray!
	...teria motivos para ficar zangado. Mas, como esse comit visa apenas promover casamentos, como no estamos em uma reunio secreta de uma organizao que pretende derrubar o governo ou incitar a instabilidade poltica, no vejo razo para tanto segredo. Concorda comigo, Adelaide?
Mais um suspiro ecoou na escurido, dessa vez da me de Shadoe, chefe do Comit Cupido.
	Digamos que tenho de admitir que sua argumentao  lgica.
Considerando que veio pedir nossa ajuda, devia seguir as regras  Shadoe reclamou.
	Prefiro criar minhas prprias regras.	
	J notamos. A propsito, como descobriu sobre nos.
Gray cruzou os braos sobre o peito e balanou a cabea.
	No posso revelar minhas fontes.
	Foi Shayde, no foi? Desde que o casamos com Tess, ele perdeu a razo. Se  que algum dia a teve.
Gray conteve um sorriso. O discurso era tpico de um irmo.
	Ele est apaixonado.
	Se  isso que o amor faz com as pessoas, prefiro viver sem ele.  Shadoe levantou-se.  Talvez seja.melhor extinguirmos o comit. E  melhor acabarmos com ele antes de promovermos maior desintegrao da inteligncia dos machos da espcie.
	Lamento, mas  tarde demais. No meu caso, pelo menos  anunciou Gray.
	Pobre bastardo!
	Pare com isso, Tom.
Adelaide falou em voz baixa com os outros membros do comit. Juntos, todos se levantaram e saram por uma porta no fundo da sala. Ento, ela se dirigiu a um painel na parede e acendeu as luzes da rea de conferncia, um espao sbrio mobiliado apenas por uma mesa e meia dzia de cadeiras de couro. Sobre um canto da mesa havia uma pilha de pastas idnticas.
	Assim  melhor, no acha?  ela perguntou.  Toda essa tolice de manto e capuz pode ser divertida, mas tornou-se intil a partir do momento em que Gray descobriu nossas identidades.
	O que nos remete  mesma pergunta. Quem contou sobre ns?  Shadoe insistiu.
	J disse que no vou revelar minhas fontes. Alm do mais, isso no importa. Sei que o comit existe e vim pedir ajuda. Ponto.
	 Emma Palmer, certo?  adivinhou Adelaide.  Quer que o comit promova uma unio entre vocs.
Por que tinha a sensao de que necessitaria de toda sua habilidade de negociador para resolver a questo? Ingnuo, presumira que entraria naquela sala, faria seu pedido e obteria uma promessa do Comit Cupido de que estaria casado ao cair da noite. O fato de ter cometido um engano to grosseiro sugeria que a desintegrao de sua inteligncia ocorria numa velocidade muito maior do que havia antecipado.
No que a deteriorao intelectual mudasse alguma coisa. S uma coisa importava para ele. Emma Palmer. Queria aquela mulher. No. Honestamente, precisava dela. Por um cintilante momento em sua vida, tivera o sonho em suas mos. Depois o perdera. Quaisquer que fossem as solicitaes feitas pelo comit ou os sacrifcios exigidos, estava disposto a tudo para t-la de volta.
O primeiro passo seria conquistar a colaborao do comit.
	Esto se recusando a me ajudar?  ele perguntou, usando a pergunta como um artifcio para ganhar tempo e organizar os pensamentos.
Adelaide hesitou.
	Estamos dispostos a considerar seu pedido, mas no posso prometer nada.
- Ento, est hesitando por pensar que no somos compatveis? Ou por que tem outras prioridades em sua lista de casamentos?
	Nenhum dos dois  Shadoe respondeu.  s vezes recusamos uma solicitao por acharmos que no devemos interferir.
	Exatamente  concordou a me dele.  Descobrimos que existem situaes em que a melhor alternativa  deixar a natureza seguir seu curso.
Como no conseguia pensar em nada para derrubar tal argumento, Gray decidiu seguir um caminho diferente.
	Tiveram sucesso com Tess e Shayde.
	Shayde no sabia nada sobre o que estvamos fazendo  contou Adelaide.  Nem Tess.  melhor assim.
	Est dizendo que no vo ajudar-me?  a pergunta soou desesperada.
	No necessariamente. Primeiro, h algo que quero saber.  Ela se aproximou com expresso compenetrada.  Por que precisa de nossa ajuda? Por que no pode conquist-la sozinho?
A questo o atingiu em um ponto dolorido. Por causa de seu passado e de sua formao, era um homem que dava grande valor  privacidade. Tambm se orgulhava de resolver os prprios problemas sozinho, fossem eles profissionais ou pessoais. Pedir ajuda era algo que o incomodava. Ter de admitir a interferncia de outras pessoas era um incmodo ainda maior.
Tudo bem. Podia lidar com esse tipo de desconforto. Mas no estar no controle do prprio destino, no ser capaz de encontrar uma sada para aquela situao em particular, era algo quase insuportvel. No fosse por Emma, jamais teria considerado aquele curso de ao.
Mas era por Emma. Ela havia sido a nica luz em sua vida desde que eram pouco mais do que duas crianas. Emma fora um sopro do ar fresco da primavera em sua estril vida gelada de inverno. Onde ansiava pela ordem, ela criava o caos. Onde via direita, esquerda ou em frente, ela enxergava acima, abaixo e na diagonal. Quando analisava suas escolhas entre duas alternativas, ela explorava possibilidades infinitas. E quando se escondia das emoes que haviam criado tanto tumulto em sua vida na juventude, ela as recebia de braos abertos. Emma era a emoo em sua forma mais pura e selvagem. Em vez de fazer a opo mais sensata e evitar a confuso de sentimentos que ela provocava, descobria-se buscando esse caos. Com ela, sentia-se vivo, algo que no experimentava h muito tempo, mais do que podia contar.
	Preciso da ajuda do comit porque Emma e eu no temos nos entendido bem recentemente  admitiu.
	Vejamos... Pelo que conheo de Emma, ela quer ir para a esquerda, e voc, para a direita.
O comentrio de Adelaide refletia seus pensamentos com tanta propriedade, que Gray no conteve um sorriso.
	Digamos que  mais ou menos isso,
	Ento, na prxima vez em que ela quiser ir para a esquerda, v com ela.
	Se conhecesse Emma to bem quanto eu, no faria essa sugesto.
	 to difcil assim?
	Pior.
	Ento, por que insiste nela?
	Porque a amo. Simples, no ? Amo aquela criatura desde que ela ainda tentava escapar das fraldas.
Adelaide olhou para o filho antes de fazer um movimento afirmativo com a cabea.
	Muito bem, Gray. Veremos o que  possvel fazer. Mas devo preveni-lo sobre um pequeno problema que ter de enfrentar antes que tudo isso chegue ao fim.
	Que problema?
	Vai se arrepender por ter solicitado nossa interferncia. Vai lamentar no ter tentado conquist-la sozinho.
	Eu tentei, e foi intil.  Gray estendeu a mo para despedir-se, primeiro de Adelaide, depois de Shadoe.  Obrigado pela ajuda. Peam tudo que quiserem de mim, e sero atendidos sem demora.
	Pode estar certo de que faremos nossos pedidos.
	Oh, sim... e mais uma coisa...
Adelaide ergueu uma sobrancelha.
	Cas-lo com Emma no  o bastante?
	 s um pequeno detalhe, nada que cause dificuldades...
	O que quer, Shaw?  Shadoe perguntou irritado.
	Mantenham-me informado sobre os progressos do comit.  Devia soar como um pedido. Infelizmente, o tom sugeria uma ordem.  Quero saber sobre cada passo que derem.
	Lamento, mas no mantemos nossos clientes informados. No como est sugerindo  respondeu Adelaide.  Esse tipo de procedimento pode influenciar de forma negativa o desfecho final, e isso seria negar por completo o propsito
da nossa organizao.
Gray balanou a cabea. No podia aceitar esse tipo de situao.
	Abram uma exceo. Sei que os membros do comit recebem informaes atualizadas atravs de e-mail regula
res. Enviem cpias dessas mensagens para o meu endereo eletrnico. Prometo no interferir nos seus planos. Por que o faria, se quero que isso d certo?
	Juro que vou matar Shayde quando puser as mos nele  resmungou Shadoe.  Os clientes no devem saber como
operamos.
	Mas eu sei. Por favor, considerem meu pedido.  importante para mim.
	Vou pensar  o rapaz respondeu em voz baixa.
	Obrigado.  No devia prolongar o encontro. J obtivera o que fora buscar ali. Se fosse esperto, voltaria para San Francisco antes que eles tivessem tempo para reconsiderar. Com um aceno rpido, ele se virou e saiu da sala.
	Acha mesmo que ele vai se arrepender por ter pedido nossa ajuda?  Shadoe perguntou ao ficar sozinho com a
me.
	Sem dvida nenhuma.
	Por qu?
	Porque ele nunca ter certeza  Adelaide respondeu com um suspiro cansado.  Jamais saber se a esposa o  aceitou por am-lo, ou porque foi envolvida em algum truque do comit. E isso no vai ser bom para um homem como
Gray.
	Foi ele quem procurou por ns. No fomos atrs dele.
	No, mas ele no foi o nico que procurou pelo comit, foi? Tess, a melhor amiga de Emma, esteve aqui h dois meses pedindo nossa ajuda para casar as duas amigas. Se aproxim-la de seu irmo no houvesse sido prioritrio, 
essa altura j teramos cuidado da situao. Quantos pedidos temos agora? Trs?
	Quatro, e todos idnticos. O casamento de Emma e Gray. Tantas pessoas no podem estar cometendo o mesmo
erro, no acha?
	A lgica aponta nesse sentido. No entanto, imagino que realizar esse casamento seja mais difcil do que antecipamos. 
	Est dizendo que podemos fracassar? Isso nunca aconteceu antes!
	Para tudo existe uma primeira vez. At mesmo para algo to improvvel quanto o fracasso.
	De jeito nenhum! Realizamos trezentos e vinte e trs unies sem um nico fracasso. Isso nos coloca  frente da quele pessoal do Baile da Cinderela, no?
	S por uma unio. E isso no ter a menor importncia se fracassarmos agora.
	No vamos fracassar. Eu garanto.
	Se pelo menos eu conseguisse pensar em um jeito...  Adelaide parou de falar e seu rosto foi iluminado por um sorriso amplo.
Shadoe gemeu.
	Conheo essa expresso, chefe, e ela  sempre sinnimo de encrenca.
	No seja tolo. Tenho um plano, mas no poderei coloc-lo em prtica sem a ajuda de meu melhor colaborador no
papel de Instigador.
	Est falando de mim?
	Sim, querido. De quem mais poderia ser?
	Que sorte a minha! Acabo de ser nomeado instigador justamente para o enlace que tem menos chances de dar
certo!
	Nem sempre podemos ter trabalhos fceis ou divertidos. De fato, meu plano  to maluco que pode at funcionar.
Escute bem o que quero que faa...    


CAPITULO I

Assunto: Emma Palmer, Atuafizando Informaes
Para:       comite@comitecupido.com
De:         shadoe@comitecupido. com
CC:         "Sr. Problema" grayson_shaw@galaxies.net
Um lembrete a todos os membros: O relatrio de sbado sofrer atraso de um dia e prefiro no ouvir reclamaes sobre o assunto. Querem as informaes mais atuais sobre Emma, no querem? Ento, deixem de resmungar. Enviarei q e-mail para todos vocs na primeira oportunidade que tiver.
Emma partir para o casamento no sbado de manh para o casamento de Tess Lonigan. Para aqueles com memrias prejudicadas, Tess foi nosso ltimo caso e est prestes a se casar com meu irmo e colega instigador, Shayde. Ei, Seth! Espero que leia esta mensagem antes de partir para o casamento. Tenho algumas informaes bem interessantes sobre sua irm, minha futura cunhada. Aposto que ela nunca contou essa histria a ningum. Pronto para rir? Aparentemente, ela e Raine Featherstone (nossa prxima misso) costumavam ficar em Palmersville com Emma durante as frias da faculdade. Em uma dessas visitas, Emma desafiou Tess a nadar nua em Nugget Creek sem ser surpreendida. As duas fizeram uma aposta. O bisbilhoteiro local, um sujeito chamado Billy Sheraton, fez tudo para espion-la, mas Raine instou um gato a atac-lo. (Antes que comecem a ligar para o meu celular, no, eu no descobri como Raine conseguiu se fazer obedecer pelo tal gato. As pessoas em Palmersville referem-se a isso como um "dom" prprio de Raine. Assim, no me importunem com perguntas que no posso responder. Ou, melhor ainda, vo perguntar a Gray. Ele tem uma habilidade toda especial para conseguir informaes confidenciais.)
A agenda de Emma  a seguinte: Ela sair cedo para a viagem de uma hora at San Francisco, onde pegar um avio para Seattle. Depois ir para o King's Crown (aquele hotel novo e luxuoso que foi construdo durante os ltimos dois anos). Assim que Emma chegar, ela ir para a prova dos vestidos. Resolvida essa questo, Tess e suas duas grandes amigas passaro as horas que antecedem o casamento cercadas pelo luxo e pelo "prazer" de torturas tipicamente femininas, coisas como uma massagem completa, manicure, pedicure, maquiagem, penteado e outros pequenos detalhes referentes  esttica. O casamento est marcado para as sete da noite, e se Seth ou Adelaide no forem mais rpidos, eu os informarei sobre cada segundo da cerimnia assim que tiver um minuto livre. Considerando que metade do Comit Cupido far parte do cortejo nupcial ourda lista de convidados, o restante poder sofrer com a curiosidade at que tenhamos uma oportunidade para inform-los.
O primeiro passo do plano da chefe j est em andamento. Nada deve dar errado. (E no, Gray, no vou contar nada sobre o plano.)
Oh, e em resposta a perguntas recentes... Grayson Shaw foi convidado para ir ao casamento. Dizem at que ele dever acompanhar Emma pelo corredor da nave at o altar. Se for verdade, todos os presentes tero uma oportunidade para avaliar a situao. (Certo, Gray?)
Shadoe, Instigador Extraordinrio do Comit Cupido enviando notcias de Palmersville, Califrnia (e tentando man-ter-se incgnito).
Bem, talvez aquele no fosse o pior dia de sua vida. Na relao dos dias ruins, aquele podia ser classificado entre os dez mais horrendos. Emma Palmer olhou mais uma vez para o nmero escrito no pedao de papel em sua mo e comparou-o ao da porta. Eram idnticos. S precisava bater. Simples, certo? Errado, porque no queria falar com o homem que estava do outro lado da porta.
J era terrvel ter perdido a prova das roupas por conta de um atraso no vo. Tambm perdera todas as coisas divertidas que ela, Tess e Raine haviam planejado para as horas anteriores  cerimnia. Como se no bastasse, sua bagagem fora extraviada, o hotel cancelara sua reserva e dera seu quarto a outra pessoa, e ainda tinha de desincum-bir-se de uma tarefa de ltima hora delegada pelo av. Nesse ritmo, no chegaria  igreja, e Tess nunca a perdoaria.
Bem, quanto mais depressa batesse, mais cedo estaria partindo. S precisava cerrar o punho e empurr-lo contra a porta.
Tudo bem, talvez precisasse de mais alguma coisa. Depois de bater na porta do quarto de Gray, teria de contar algumas mentiras simples, corpo "no pensei em voc nos ltimos meses" e "Puxa, como o tempo passa depressa quando estamos envolvidos com pessoas interessantes e novas". Depois olharia para ele como que para mostrar que no estava mais interessada, que seu mundo no deixava mais de girar por causa dele. Para completar, exibiria uma personalidade diferente da dela. No haveria nenhuma exploso emocional, nem suplicaria por um ltimo beijo. E no o empurraria sobre a cama a fim de saciar todas as fantasias que a torturavam nos ltimos dias. Se seguisse essas pequenas regras, talvez sobrevivesse aos dois dias seguintes.
Emma respirou fundo. Era capaz de realizar algo to simples. Claro que sim.
S teria de suprimir toda e qualquer reao  presena de Gray, especialmente as de natureza sexual, e apresentar uma fachada de frieza e desinteresse. Seria simples, mesmo que nunca houvesse feito nada parecido antes. Afinal, era uma mulher adulta. Podia agir de acordo com sua idade cronolgica ao menos uma vez, no?
Antes que pudesse bater, a porta do outro lado do corredor foi aberta por uma mulher idosa que sorriu ao v-la.
	Emma Palmer! Que surpresa! Quero dizer, esperava encontr-la, mas no no corredor do hotel.
Emma virou-se e forou um sorriso radiante.
	Ol, viva Bryant. No sabia que tambm viria a Seattle.
A mulher passara a ser conhecida por todos em Palmersville como viva Bryant desde que perdera o marido aos vinte e cinco anos de idade. Cinquenta anos mais tarde, seu estado ainda era o mesmo e nada indicava uma possvel alterao no futuro prximo.
	Tess me convidou para o casamento. Ela no disse nada?
	Oh, sim,  claro! Vocs passaram a trocar correspondncia depois de um determinado vero que ela passou em Palmersville.
	Temos o mesmo interesse por atividades filantrpicas. No fosse por Tess, eu no teria feito decolar meu programa literrio.
	Entendo.
	Eu no pretendia vir, sabe?  A viva baixou a voz e olhou em volta como se temesse ser ouvida.  Odeio deixar Bootsy.
Desde que Edgar Bryant falecera, a viva e sua interminvel sucesso de gatos, todos chamados Bootsy, eram inseparveis. O ltimo animal havia sido um vira-lata festivo quando um dos mais comentados escndalos de Palmersville ocorrera, o infame incidente do mergulho sem roupas. Naquele dia o gato conseguira escapar de sua dona, uma coincidncia que acabara sendo providencial. Com uma nica exceo, todos haviam sado satisfeitos do episdio.
Bootsy experimentara um raro momento de liberdade. Tess ganhara a aposta proposta por Emma sem muitas repercusses embaraosas. Raine provara mais uma vez seu incrvel dom com os animais convencendo o gato a atacar Billy. E Billy Sheraton, a exceo, recebera seu castigo justo na forma de quatro horrveis arranhes deixados pelo animal em seu traseiro. O ataque o curara da tendncia de espionar a intimidade alheia.
	Presumo que tenha decidido deixar Bootsy para vir ao casamento de Tess  Emma concluiu.
	Para ser honesta, tomei minha deciso quando li uma descrio do hotel no suplemento de turismo do jornal da semana passada. Assim que terminei de ler o artigo, liguei para Ellie e pedi a ela para hospedar meu Bootsy por dois dias. Ellie vive com a me de Bootsy, Buttercup.
	Sim, eu sei.
	No sabe. Nunca teve com os animais a mesma relao de Raine. Tudo bem, querida. Ns a amamos mesmo assim.
Uma ideia sbita passou pela cabea de Emma.
	Estou surpresa por ter conseguido um quarto. O hotel est lotado por meses!
	Foi sorte. Consegui o ltimo quarto disponvel. O gerente disse que havia ocorrido uma desistncia de ltima hora. Parece que o hspede no apareceu no dia marcado, e eles cancelaram a reserva.
Emma rangeu os dentes para no demonstrar a impacincia que a acometia.
	Tem razo. Algum se esqueceu de pagar as dirias com o carto de crdito, o que teria garantido a reserva em caso de atraso. E claro que, se o vo desse algum no houvesse sofrido um atraso, se algum no tivesse sua bagagem extraviada, e se algum no tivesse de enfrentar trs horas no trnsito at chegar ao hotel, nada disso teria acontecido.
A viva Bryant sorriu.
	E eu no teria conseguido o quarto. Meu querido Edgar sempre disse que eu tenho muita sorte!
	Eu tambm. Mas, no meu caso, a expresso no pode ser tomada pelo aspecto mais positivo.
	Esse  seu quarto?  bom saber que somos vizinhas.
Emma fechou os olhos por um instante. Cus!
	Na verdade, esse  o quarto de Gray  admitiu relutante.  Meu av pediu que eu viesse trazer um recado antes do casamento.
	Ah... sim. Bem, essa  uma desculpa to boa quanto qualquer outra, no?
Que maravilha! Palmersville inteira ficaria sabendo de sua presena diante do quarto de Gray antes do casamento de Tess. Da a dizerem que estava dentro do quarto, na cama de Gray, seria um pulo. No que a fofoca pudesse se espalhar como um boato maledicente ou ressentido. No. Palmersville era assim. Toda histria ganhava novas cores e alguns detalhes cada vez que era contada.
	No  o que est pensando  protestou, disposta a esclarecer os fatos.
	Nunca , meu bem. At que, um belo dia, voc se descobre casada com cinco ou seis coisinhas lindas agarradas em sua saia. Lutei contra o inevitvel com unhas e dentes, mas meu Edgar era irresistvel.
	Sou perfeitamente capaz de resistir a Gray. Sem nenhum problema.
	Isso mesmo. Mantenha o esprito de luta. Continue tentando at convencer-se disso, se acha que assim vai se sentir melhor. S mais um conselho, querida: voc tem apenas uma hora antes do casamento de Tess. No se envolva em nada muito excitante, ou vai se atrasar para a cerimnia. Depois disso, no serei a nica a so'mar dois e dois.
No. No, no, no!
	Por favor, no some dois e dois  Emma pediu alarmada.  E no deixe que outras pessoas faam a soma, porque, nesse caso, dois mais dois so cinco.
	S se no tomar as devidas precaues. Caso no tenha notado, o hotel conta com uma galeria de comrcio onde h uma farmcia muito bem estocada. Se bem que, conhecendo Gray, imagino que ela tenha vindo preparado para todas as contingncias. Os contadores so assim.
Emma podia sentir o rosto queimando.
	Ainda no entendeu...
	Gostaria de ter tempo para ouvir suas explicaes, mas preciso correr.  A viva Bryant trancou a porta do quarto.
 E interessante que tenham se reconciliado mais uma vez. Pensei que o rompimento fosse definitivo.
A histria parecia pior a cada minuto.
	Mais uma vez?
	Oh, sei que tentaram guardar segredo na ltima vez, mas foi intil, querida. Sabe como as notcias correm em uma cidade pequena como Palmersville.
Emma suspirou cansada.
	Sim, eu sei. Porque, normalmente, sou eu quem as faz correr tanto. Mas s aquelas que me interessam.  Ela olhou para a porta do quarto de Gray como se pudesse atravess-la com a fora do pensamento.  Pelo menos, era o que eu pensava.
	No pode esperar que as pessoas deixem de comentar seu primeiro caso de amor. Ficamos todos muito entusiasmados, sabe? At que... Ah, voc sabe. Depois daquilo percebemos que o relacionamento no daria em nada. Alguns chegaram a fazer apostas sobre como tudo acabaria.
	Apostas!
	Ganhei um bom dinheiro. Espero que no se importe por eu ter apostado contra voc.
	Espere um minutp. Todos sabiam que Gray e eu est vamos... ou melhor, pensavam que estvamos...
	Se est preocupada com Tee, ele no soube de nada. De acordo com as informaes que tenho, seu av nunca soube sobre seu caso de amor. Ningum teve coragem para contar a ele. Sabamos que ele arrancaria os... Bem, sabamos que ele ficaria furioso com Gray. Por mais tentadora que tenha sido a ideia depois do qu Gray fez, ningum quis aborrecer Tee. No com os problemas de sade que ele tem enfrentado.
Emma fez uma ltima tentativa.
	No est entendendo. No h nada a dizer. No aconteceu nada.
	 claro que no, meu bem! Sustente essa histria. Quem sabe? Algum pode acreditar nela.  Ela bateu no brao de Emma.  Agora, lembre-se do meu conselho e limite-se a uma visita rpida e inocente, ou todos percebero que retomaram o romance, e eu no terei as mesmas chances na prxima aposta. At mais tarde, querida.  Com um aceno rpido, a viva afastou-se pelo corredor.
Emma deixou escapar um palavro.
Bem, o estrago estava feito. No havia como evitar os comentrios. Teria de contar com Gray para ajud-la deter a onda de fofocas durante o casamento. No seria difcil. O ressentimento entre eles era to evidente que todos notariam. Erguendo o punho, Emma bateu na porta com fora desnecessria, lamentando no poder fazer o mesmo com o nariz de Gray.
A porta se abriu com lentido exasperante.
	Sabia que conhecia esse som. Depois de tantos anos, como poderia deixar de identificar suas batidas?
Era hora de escolher. Ou sacrificava o orgulho e se atirava nos braos dele, ou extravasava toda a irritao em Gray. A irritao venceu. Alm de preservar o orgulho, ficar zangada a impediria de cometer uma terrvel tolice... como encontrar o caminho mais rpido para coloc-lo na horizontal.
	A culpa  toda sua!  anunciou.
	Ol para voc tambm. Entre, por favor. Fique  vontade enquanto continua gritando comigo.
	Por mais tentadora que seja sua oferta, devo recus-la. Se ficar aqui dentro por mais de cinco minutos, todos em Palmersville pensaro que estamos... Que ns... Que estamos...
	Fazendo sujeira?  Gray fechou a porta.
	Isso  revoltante!  Emma atravessou o quarto com a inteno de colocar entre eles a maior distncia fsica possvel. Assim no ficaria tentada a fazer sujeira, besteira, asneira, ou qualquer coisa que envolvesse Gray e ela deitados e nus.  Mas o sentido  esse.
	Pode me explicar por que todos em Palmersville pensariam que estamos...
	Cometendo uma inconsequncia!  ela cortou apressada.
	O nome no importa.
	Se no houvesse se hospedado em um quarto na frente do da viva Bryant, ningum suspeitaria de nada.
	Maldio! E pensar que usei todo meu poder de persuaso para conseguir essa proeza!  Emma ouviu os passos atrs dela. Sentiu a aproximao e soube que ele estava prximo. Muito prximo.  S por curiosidade... Por que fiz isso? No consigo lembrar...
Ela se virou para encar-lo, mas todos os pensamentos coerentes desapareceram de sua mente. Gray estava bem ali, vestindo um fraque de corte perfeito que realava seus ombros largos. Lembrava-se daqueles ombros. E por que no lembraria? Havia explorado cada centmetro deles. Beijara cada polegada. Dormira neles. Chorara neles. Agarrara-se a eles durante noites inteiras de paixo.
Tola, acreditara estar apaixonada por ele, confundindo luxria com sentimentos mais profundos e significativos. Como fora idiota. Alm de terem nascido na mesma cidadezi-nha, no tinham mais nada em comum. Gray vivia em um mundo que reconhecia duas cores: preto e branco. Ou, considerando sua posio de contador, talvez devesse dizer preto e vermelho. Crdito e dbito. Mais e menos. Ele se recusava a ver qualquer coisa entre esses dois extremos. Gray organizava a vida em compartimentos e caixas, mas Emma preferia algo diferente.
Ou melhor preferia coisas distintas daquilo que Gray tinha para oferecer, at enfar naquele quarto de hotel. Talvez uma pequena recada no fosse um desastre to grande. Atribuiria a culpa de tudo a um dia estressante, ou ao excesso de emoo provocado pelo casamento de uma de suas melhores amigas. Ou ainda, poderia simplesmente admitir que no resistia a um ombro largo, a um belo par de olhos azuis e lbios capazes de faz-la arder, a mos que podiam provocar as reaes mais ultrajantes.
Ela umedeceu os lbios.
	Gray...
Uma nica palavra, e pusera tudo a perder. A reao fsica de Gray a atingiu como um raio, provocando uma mistura de nsia dolorosa e determinao implacvel.
	Se no parar de olhar para mim desse jeito, serei revoltante outra vez  ele a preveniu.  E se isso acontecer, perderemos o casamento de Tess.
Revoltante? Oh, sobre fazer sujeira! Por alguma razo, a ideia j no parecia to ruim quanto antes. De fato, era fascinante. No que tivesse a inteno de deix-lo perceber seus sentimentos.
	Ah! Eu sabia! A viva Bryant disse que perderamos o casamento se eu no tomasse cuidado.
Gray passou a mo na cabea, causando uma desordem atpica nos cabelos castanhos e ondulados. Emma adorava saber que podia provocar esse tipo de resposta.
	Um dia desses teremos uma conversa sobre como  difcil entender o que voc diz. Podemos comear novamente? Talvez haja uma abordagem lgica para toda essa questo.
	Oh,  claro. A lgica. Sua especialidade.  Ela respirou fundo, tentando organizar os pensamentos. Gray conseguia manter o raciocnio claro sem nenhum esforo aparente. De sua parte, considerava a lgica um assunto confuso.  A viva Bryant est hospedada no meu quarto do outro lado do corredor.
	Seu quarto?
	O quarto que teria sido meu. Mas cheguei tarde, e o hotel cancelou minha reserva e hospedou-a l.
	E a culpa  minha?
	No. Quero dizer, no por essa histria do quarto. E tambm no posso acus-lo por seu quarto estar localizado na frente do dela.
	Ah, o frescor da honestidade!
	No me venha com sarcasmo, Gray. Temos um problema. Tomos em Palmersville pensam que estamos envolvidos.
	J estivemos.
O homem era impossvel. Sempre fora. E continuaria sendo, at o fim de sua insuportvel e organizada vida de contador.
	Ser que no entende? As pessoas vo pensar que ainda existe algo entre ns. A viva Bryant me viu entrando aqui. A cidade inteira est apostando sobre como ser o desfecho do nosso relacionamento.
	Lembre-me de pr algum dinheiro nisso. Considerando que sei exatamente como nosso relacionamento vai acabar, posso ter um bom lucro.
	Ser que pode falar srio?  Devia rir da piada. E teria rido, se as circunstncias fossem outras. Mas no podia. No mais. A infelicidade de como se haviam separado a impedia de rir. Doa. s vezes sofria s por pensar nisso. Mas dividir o mesmo espao fsico, estar to perto dele sabendo que nunca mais teriam o que haviam conhecido juntos... Determinada, ignorou a onda de dor e concentrou-se no assunto em questo.  Vejamos se posso colocar o problema em preto e vermelho, de forma que at voc consiga compreend-lo. Fui vista na porta do seu quarto.
	E da?
	A viva Bryant concluiu que eu estava l fora com a inteno de visit-lo.
	E voc estava mesmo.
	Voc sabe o que quero dizer! Ela acha que estamos fazendo suj...  Emma gemeu e cobriu o rosto mortificada.
 Fazendo amor! Ela pensa que vim aqui para fazer amor!
	E da? Ela pode pensar o que quiser. E ns podemos fazer o que quisermos.
O homem no devia tent-la desse jeito. No era justo.
	As pessoas vo comentar  Emma argumentou desesperada.  Tee vai descfobrir!
	Que descubra! Voc tem trinta anos de idade, Emma! Que diferena vai fazer se seu av descobrir sobre o nosso envolvimento?
	Tee no acredita em envolvimentos. Ele acredita em casamentos. Se ele descobrir que estivemos...
	Fazendo sujeira?
	Droga! Ser que no est ouvindo? Ele vai exigir que nos casemos.
	E ns nos recusaremos. Onde est a dificuldade?
	Voc conhece Tee. Ele encontraria um jeito. Prefiro no dar motivos para que ele insista em um assunto impossvel.
	Vai ser difcil. Se toda Palmersville faz apostas sobre estarmos ou no...
	No estamos!
	J estivemos.
	No estamos mais. E no vamos recomear.
	Que pena!
O pensamento era to semelhante ao dela, que Emma teve certeza de que Gray no havia refletido antes de falar, ou no teria admitido tal coisa. E no conseguia formular uma resposta. No diante de franqueza to nua e crua. Um comentrio distante e frio o magoaria, e qualquer coisa mais sria a levaria de volta para um lugar onde no ousava ir.
Por um momento os dois se olharam num silncio repleto de reconhecimento. Conheciam-se desde sempre. Com toda honestidade, tinha de admitir que conheciam um ao outro melhor do que qualquer outra pessoa. Haviam compartilhado muitas ocasies cruciais. Aniversrios. Formaturas. Perdas. Descobertas. Os melhores momentos. Os piores. No havia um nico evento importante em sua vida do qual Gray no houvesse participado, como ela tambm desempenhara papel vital em todos os seus grandes marcos. Os fantasmas de incontveis lembranas estavam ali, entre eles, enchendo o ar com os ecos do amor, do riso e da paixo.
E do pesar.
	No temos tempo para isso, Emma. O casamento comea dentro de uma hora.
O comentrio prtico destruiu o momento.
Era tpico dele. Deixar uma gota de emoo entrar na relao para dar a ela um fim rpido. N entanto... Ele no parecia estar evitando um confronto emocional. No dessa vez. Na verdade, soava exausto. Devia estar exagerando no trabalho, outra atitude tpica. Bem, o problema deixara de ser dela. No pensaria mais nisso. Pelo menos se esforaria nesse sentido.
	Eu sei que o casamento comea em uma hora  disse.
	Ento, o que est fazendo aqui?
Emma abriu a bolsa, vasculhou o interior ocupado pela parafernlia que estava sempre se acumulando, apesar de toda a diligncia para impedir o caos, e encontrou o envelope que entregou a Gray.
	Tee pediu que eu viesse lhe entregar isto. Ele disse que era urgente e que eu deveria procur-lo antes da cerimnia, em particular.
Gray abriu o envelope e levou apenas um minuto para ler a mensagem breve. Eu a levei at a. O que vai fazer com ela  problema seu. Que maravilha! Tee oferecia a neta em uma bandeja, mas fazia sua oferta uma hora antes da cerimnia de casamento. A nota devia ter sido provocada pela ao do Comit Cupido. Sem dvida, esse era o primeiro passo a que Shadoe se referira em seu e-mail. Pena no ter tempo para nada. Ou melhor, para nada que fizesse grande diferena.
	De que se trata?  Emma perguntou.
	Negcios.
	Negcios?  A voz sugeria desconfiana.  Eu trabalhava para Tee antes de trabalhar para voc. Se o assunto  to urgente, por que ele no me disse nada?
	Porque tambm  confidencial  improvisou Gray. 
	Confidencial e urgente. Que interessante...
	Por que est to curiosa?
Ela hesitou por um momento.
	E Tee. Ele no tem estado bem ultimamente, e estou preocupada. S queria ter certeza de que a nota no tem relao com sua sade.
Gray estudou-a em silncio. Emma estava escondendo alguma coisa dele. Algo importante. Era hora de descobrir o segredo.
	O assunto no tem nenhuma relao com Tee ou sua sade. Mas, se preferir, podemos discutir o contedo do bilhete depois do casamento. Satisfeita?
	Sim, obrigada.
	Por nada. O que est acontecendo com seu av?
	Nada srio.  A mentira era transparente, como sempre. Emma nunca fora capaz de mentir. Gray sempre havia considerado essa incapacidade sua qualidade mais atraente.
 Em pouco tempo ele voltar a ser como sempre foi.
Determinado, Gray aproximou-se e pousou as mos sobre seus ombros. Ela no as empurrou, mas um brilho defensivo surgiu em seus olhos. Eram olhos estranhos. Amendoados, mais dourados do que castanhos, possuam uma qualidade quase felina que combinava com o rosto triangular. Ela era um esprito caprichoso, uma fada dourada que invadira sua vida em pocas muito distantes e a alterara para sempre. E isso o enfurecia.
No devia ser impelido por urgncias to bsicas e fsicas. No era seu estilo. Vivia em um mundo de escolhas simples. No devia desejar cavalgar cometas, seguir o arco-ris ou perseguir sonhos tolos. Mas, quando estava com Emma, era justamente isso que queria fazer. Ela provocava algo primitivo e selvagem dentro dele, destruindo suas defesas com um simples sorriso. Sempre que Emma estava por perto, a vida parecia mais brilhante e completa. Queria o tipo de vida que ela prometia.
Precisava dela.
Gray segurou a seda da blusa delicada entre os dedos e aproximou-os de seu queixo. Ela comprimiu os lbios, provavelmente para impedi-los de tremer, embora a expresso rebelde no olhar negasse a vulnerabilidade. Espritos caprichosos, como os duendes e as fadas, eram criaturas estranhas, s vezes medrosos, s vezes assustados. E tambm eram impossveis de conter, como os raios do sol e os flocos de neve. Havia aprendido essa lio da maneira mais dura.
	Qual  o problema com Tee?  Gray persistiu.
	No temos tempo para discutir isso agora. Precisamos ir para a igreja. Voc no imagina como foi o meu dia. A companhia area perdeu minha bagagem, o hotel deu meu quarto a outra pessoa... Se Tess no estivesse com meu vestido, no sei o que faria.
	Qual  o problema com Tee?
Havia descoberto que, quanto mais suave era o tom de voz, maior era o impacto. A questo formulada em voz baixa causou um efeito instantneo.
	Ele no quer me dizer.  Sua frustrao era bvia.  Tudo que sei  que meu av no est bem e tem ido ao mdico.
	Crosby?
	Sim, ele mesmo. No que Crosby seja mais aberto. Ele parece no entender que o sigilo profissional no se aplica  neta do paciente.
	Vou cuidar disso.
	No estou pedindo para cuidar de nada. Sei resolver meus problemas sozinha.
	Vou cuidar disso.
	No.  Ela apontou o dedo indicador para o peito amplo.  Pela primeira vez em sua vida, vai ficar fora dos meus assuntos. No temos mais esse tipo de relacionamento. No somos um casal. No estamos envolvidos. E no estamos fazendo sujeira, apesar do que Palmersville pode pensar.
	Mas queremos fazer.
	E verdade...  Ela arregalou os olhos numa reao apavorada.  Quero dizer, no! No queremos. Nem um pouquinho.
	Tarde demais.  Soltando sua blusa, ele segurou o rosto delicado entre as mos.  Ento no sabe? No pode mentir para mim. Nunca conseguiu mentir. Voc ainda me quer. Tanto quanto eu a quero.
Com isso, ele a beijou.
CAPITULO II

Assunto: AVISO! Afastem-se!
Para:       "Thomas T. Palmer" almer@worldstar.com
De:	shadoe@comitecupido. Com
CC:         "Sr. Problema" grayson_shaw@ galaxies.net 
   "Tess Lonigan" honigan01 @altruistics.net 
   "Prefeito Hornsby" grandequeijo@worldstar.com
CCO:      "Chefe" adelaide@comitecupido.com
Um lembrete formal a todos que esto tentando interferir em quaisquer relacionamentos sob a considerao atual do Comit Cupido: a manipulao de eventos ser tratada pelo comit como cancelamento dos seus pedidos.
Com relao a Emma Palmer: O assunto est progredindo, mas nos aproximamos de um ponto crtico.  imperativo que ningum interfira nos eventos que j foram desencadeados. No poderemos nos responsabilizar por fracassos, nem garantir um desfecho positivo, se nossas solicitaes forem ignoradas.
Apostas com relao  concluso dos casos tambm so proibidas. As chances atuais so de trs contra um. O prefeito Hornsby pede que eu lembre a todos vocs que dinheiro  a nica forma de pagamento possvel para todas as apostas. Ele tambm pede que Kevin McConnell v buscar seu bode o mais depressa possvel.
Por favor, redirecionem a todos os interessados.
Shadoe, Instigador do Comit Cupido, em Mensagem Extraordinria
(Me, estou enviando esta cpia oculta do e-mail para Tee Palmer.  indispensvel que voc converse com Tee, ou seu plano ir por gua abaixo. Lidarei com os problemas por aqui. Voc tinha razo. Essa vai ser uma misso muito difcil. S.
P.S. As chances no so das piores. Quanto quer que eu aposte?)
A reao de Emma ao beijo de Gray foi instantnea.
Um suspiro escapou de seus lbios, um som que ela sempre produzia quando a beijava e cuja falta nunca percebera sentir at aquele momento.
	Isto  um erro. Preciso det-lo  Emma murmurou, embora ainda o abraasse.
	Desista.
	No vou desistir. S preciso de mais um minuto.  Ela o beijou novamente.  Talvez dez...
	Dez. Assim  melhor.
	Senti falta disso...
Como sempre, os pensamentos de um ecoavam os do outro. Gray no sabia se era porque haviam crescido juntos, ou se o breve tempo que passaram como amantes servira para refinar a sintonia. Naquele momento, sabia o que ela queria, podia antecipar seus desejos antes mesmo de se formarem em sua mente.
	No ficamos juntos h muito tempo.
	Muito...  ele concordou.  Mas a espera acabou.
	Que bom. No vamos mais esperar.
As mos dela o acariciavam com ousadia. Era difcil conter o mpeto de empurr-la para a cama e retomar tudo que deixara escapar. Queria Emma Palmer. Queria seu corpo nu e quente refletindo o mesmo desejo que sentia sempre que estava com ela.
Para o inferno com as restries. Eram adultos. Por que no podiam desfrutar do momento? Ele deu um passo na direo da cama. Outro. Podia ver o relgio digital por cima do ombro de Emma. Os dgitos luminosos indicavam um horrio inoportuno. Dispunha de quarenta e cinco minutos. Se no parassem imediatamente, perderiam o casamento e Emma teria mais uma razo para ficar aborrecida com ele. Aborrecida? Perder o casamento da melhor amiga causaria mais do que aborrecimento. Fria era uma palavra mais apropriada. Por outro lado, finalmente a teria em sua cama outra vez.
Por quanto tempo?
Gray praguejou mentalmente. No a queria dessa maneira. Queria tudo ou nada. No. Queria tudo. O que significava que devia controlar seus impulsos. Teria de lanar mo de toda sua fora de vontade para pr um fim no contato fsico. Recuando, encarou-a e viu o desejo em seu rosto.
Gray sorriu e ajeitou os cabelos castanhos como uma desculpa para toc-la mais uma vez.
	Ainda vai dizer que no est interessada em...
	Est bem  ela interrompeu apressada. Os olhos se abriram para revelarem uma tonalidade nica, um castanho com reflexos dourados que lembrava a terra frtil banhada pela luz do sol.  Talvez esteja interessada em...
	Mas no agora.  Ele encolheu os ombros.  Por mim tudo bem. Teremos muito tempo depois do casamento.
	No. J tentamos uma vez e no deu certo.
	Mentira. Foi perfeito.
	Tudo bem, talvez essa parte do relacionamento tenha sido perfeita. Mas foi a nica coisa que funcionou. Temos personalidades muito diferentes. A maneira como abordamos a vida  to oposta quanto possvel.
	Isso  o que dizem as pessoas de Palmersville.
	No, essa  minha concluso depois de seis meses como sua funcionria.  Ela se afastou. A cada passo ganhava fora para sustentar a atitude de desafio.  No me refiro apenas ao que fez com Tee e as pessoas da cidade. Mesmo que o perdoasse por isso, a questo fundamental ainda existiria entre ns.
	Eu no fiz nada com Tee e as pessoas da cidade.
	Voc nos classificou. Em sua opinio, estamos divididos em duas categorias: obstculos e oportunidades.
De novo no. Podia at considerar algumas pessoas como obstculos. Nesse momento, Emma fazia uma imitao perfeita de uma barreira no meio da estrada. Mas no tirava vantagem de ningum. Nunca.
	Essa discusso  muito antiga. No temos tempo para repeti-la agora.
	Nunca tivemos tempo para discutir nada. Se voc no concorda com alguma coisa que digo, a questo no  discutida.
	Para mim a soluo  perfeita.
No devia t-la provocado. Emma ergueu o queixo e encarou-a com um brilho furioso nos olhos.
	Para mim no . No pode dar uns tapinhas na minha cabea e ignorar minhas preocupaes como fazia quando eu era criana.
	No estou ignorando...
	Sim, Gray. Voc est.
Emma cruzou os braos sobre o peito, um movimento que alterou o caimento da blusa. Ah, no! Ela estava usando vermelho! Por que no notara antes? Odiava quando ela usava vermelho. A cor era um sinal de que sua disposio era desafante. Vermelho indicava que algo fortalecera sua determinao.
Vermelho sempre significava problemas.
Era hora de uma retirada estratgica.
	Emma, temos de ir para a igreja.
	J vamos. Lembra-se do meu aniversrio de dezesseis anos?
	Como poderia esquecer? Quase matei aquele garoto. Como era o nome dele?
	Eddie McGwyre.
	Bastardo. Devia ter acabado com ele quando tive chance.
	Lembra-se do que o fez pensar em acabar com ele?
	E claro que sim. Ele ps as mos em voc.
	Ele me beijou. O que voc no sabe, o que nunca soube,  que ele devia me beijar. Era meu aniversrio de dezesseis anos e eu havia planejado tudo com muito cuidado.
	O qu? Est dizendo que planejou aquele... aquela cena horrvel e nojenta?
	Se houvesse escutado o que eu tinha para dizer, se no houvesse dado uns tapinhas na minha cabea e afirmado saber o que era melhor para mim, j teria entendido a situao h muito tempo.
Estava furioso.
	Planejou aquele ataque?
	Planejei meu primeiro beijo com Eddie McGwyre. Exatamente.
	Tambm fez planos para que ele a encurralasse e quase arrancasse seu vestido a dentadas?
	As coisas podem ter escapado ao meu controle...
	Controle? No fosse por minha interferncia, o final daquela noite teria sido bem diferente.
	No, Gray. Se voc no houvesse aparecido, eu teria dado uma joelhada em certa parte do corpo de Eddie, e ele no teria tido condies de levar a noite adiante.
	Ah! Pretendia atacar Eddie McGwyre? Com uma joelhada? Emma, voc tinha um metro e meio de altura. Considerando que o Sr. Astro do Futebol tinha dois metros de largura e a fora de um tanque, seu joelho no teria causado grandes danos.  Gray arrancou a gravata borboleta. Por alguma razo, nos ltimos minutos ela ameaava sufoc-lo.
 Ser que pode explicar qual  o propsito dessa discusso?
	Voc sempre pensa saber o que  melhor.
	Eu sabia que McGwyre no era o melhor para voc.
	Podia saber. Mas, em vez de deixar-me cuidar do assunto, assumiu o comando. Em vez de ouvir o que eu dizia, desprezou minha opinio em favor da sua.
	Mas a minha opinio era a certa!
	Para voc. No para mim.
Ela s podia estar brincando!
	Emma, no creio que os eventos do seu dcimo-sexto aniversrio sejam um bom exemplo.
	No. Eu j esperava que dissesse isso.
Ela se aproximou para ajeitar sua gravata. O perfume delicado assaltou seus sentidos. Gray cerrou os punhos para conter o mpeto de tom-la nos braos.
	Terminou?
	Quase.
	Sugiro que se apresse.  Antes que fizesse alguma tolice de que se arrependeria mais tarde.
	Estive pensando sobre nossas diferenas nesses ltimos dois meses. Depois de algum tempo acabei compreen
dendo que jamais teria sido uma boa esposa para voc. Para voc, sempre fui um obstculo, em vez de uma boa oportunidade. No ofereo nenhum bnus. Sempre fui um nmero em sua minscula coluna de dbitos, e logo voc se daria conta de que nosso casamento havia sido um erro.
	De jeito nenhum.
Emma bateu em sua gravata.
	Tudo bem, Gray. O que voc fez com Tee e o restante da cidade foi desprezvel, mas no estou mais aborrecida.
	E bom saber disso.
	Vivemos melhor separados.  Ela se dirigiu  porta do quarto para sair.  Tenho certeza de que tambm j se deu conta disso.
	Vou lhe dizer de que me dei conta.
	E melhor ser breve, ou vamos nos atrasar. Pensando bem, nunca se atrasou para nada, no ?
	Para tudo existe uma primeira vez.  Gray passou por ela e bateu a porta. Sem dizer nada, agarrou-a pelos cabelos e inclinou sua cabea para ter melhor acesso  boca carnuda e tentadora. Emma caiu contra a porta e deixou escapar um delicioso gemido. Ele a seguiu, colando o corpo ao dela. Quando terminasse, teria deixado gravados em sua memria momentos de fogo e paixo. Ento gostaria de ouvi-la dizer que viviam melhor separados.
	Gray...
	No. Voc teve seis meses para descobrir o erro que estava cometendo. O tempo acabou.
	Como assim... o tempo acabou?
	Pode fugir, gritar, lutar... No me importo. Vou atrs de voc e nada vai me deter.
Emma chegou na igreja um pouco mais calma. S um pouco. Tess no percebeu sua agitao, mas Raine sempre fora mais atenta e observadora.
	O que aconteceu?  ela perguntou em voz baixa, aproximando-se para ajud-la a vestir o traje de dama de honra. Eficiente, fechou o zper do vestido e ajeitou a saia longa, promovendo um caimento perfeito.  Foi Gray, no foi? O que ele fez agora?
	Nada.
Era verdade. Ele no fizera nada alm de beij-la. Quem cometera a enorme estupidez de corresponder? Corresponder! Se ele a houvesse empurrado para a cama, teria cado nela com um suspiro de satisfao.
	Tem certeza? Voc est... estranha.
Oh-oh.
	Como assim?
	Est me lembrando Bootsy depois de fugir da viva
Bryant para uma noite fora de casa.
	Que bobagem! Sua imaginao  frtil demais, Raine.
	Eu sei. Por isso estou imaginando "as marcas deixadas em seu queixo por uma barba qualquer.
	Como?  Emma levou a mo ao rosto.  Ele havia acabado de se barbear quando cheguei l.
Raine riu.
	Bem, se sabe at quando o homem fez a barba, presumo que estejam juntos novamente.
	No estamos. Aprendi a lio h seis meses.
O relacionamento terminara de maneira desastrosa e nenhum deles queria reviver a dolorosa experincia. Sim, havia aquela pequena ameaa feita por Gray momentos antes de deix-lo em seu quarto... algo sobre persegui-la... sobre fugir e gritar... No. Ele j devia estar arrependido de ter dito tantas bobagens. No havia sido srio. No podia ter sido. Gray se deixara levar pelo calor do momento. E o momento havia sido quente. Ardente, sensual e apaixonado.
	Tem certeza de que aprendeu a lio?  Raine insistiu.  Parece um pouco hesitante.
	Porque Gray fez algo estranho. Mas ele no estava falando srio.
	Ah, sim. Ele nunca fala srio.
	O qu? Gray sempre leva a srio cada palavra que diz e...  Emma arregalou os olhos.  Ah, droga!
	Bem, agora que esclarecemos esse pequeno detalhe, que tal terminarmos de arrum-la para o casamento?  Raine tocou os cabelos da amiga.  Presos ou soltos?
A mudana de assunto causou grande alvio.
	Soltos. No temos tempo para nada muito sofisticado.
Raine assentiu em silncio e comeou a espalhar mni-rosas e minsculas flores brancas pelos cabelos ondulados da amiga.
	A companhia area localizou sua bagagem?
	No. E tambm no tenho onde dormir esta noite.
	Est brincando?
	No. O hotel deu meu quarto a outro hspede. Por acaso tem uma cama extra no seu?
	No vou passar a noite aqui. Preciso voltar para casa ainda hoje.	
	Por qu? Algum problema?
	Fique quieta, ou no vou conseguir terminar de arrumar seu cabelo.  Ela prendia as flores com grampos.  Quanto ao que acaba de perguntar, no tenho nenhum problema. Estamos com poucos empregados no rancho e no quero deixar minha av sozinha por mais tempo do que o necessrio.
A porta se abriu e a irm do noivo apareceu na soleira.
	Est na hora. Prontas, garotas?
Emma e Raine aproximaram-se de Tess e examinaram cada detalhe em busca de alguma imperfeio. No encontraram nenhuma. Ruiva, ela usava os cabelos presos sob o vu curto e exibia formas perfeitas num vestido justo at a linha do quadril e com uma saia que ia se abrindo aos poucos at a altura do tornozelo. Simples e elegante, o modelo combinava com sua personalidade. E ela estava totalmente calma.
	Sei que estou fazendo a escolha certa  explicara pouco antes.  Shayde e eu somos perfeitos juntos. No imagino minha vida sem ele, e sei que ele sente o mesmo por mim.
Num dos poucos momentos em que a tradio foi quebrada, os padrinhos do noivo acompanharam as damas-de-hon-ra pelo corredor central. Tess dissera que o gesto daria uma atmosfera mais ntima e familiar  cerimnia. Shayde, o noivo, esperava sozinho no altar e tambm se mostrava calmo e seguro.
	Seth, o irmo de Tess, vai acompanhar Spirit, irm de Shayde  Raine explicou em voz baixa para a amiga.  Voc e Gray iro atrs deles, e eu entrarei logo atrs com Shadoe, irmo do noivo.
	Espere um minuto. Conheo Shadoe e Shayde. Mas Spirit?
	 a irm do noivo. Aquela que foi nos chamar para a cerimnia.
	Eu sei, Raine. Mas que espcie de nome  esse?
	 s o nome do meio, embora ningum a chame por ele. A me a chama de Harry, e os irmos preferem bruxa, gralha e outros apelidos delicados.
	Harry?
	Ento no sabe? A mulher deu aos trs filhos os nomes de Tom, Dick e Harry?
	Mas... o sobrenome deles no  Smith?
	Agora voc entendeu.
	Isso  horrvel! Ela deu aos filhos os nomes de Tom, Dick e Harry Smith? A mulher no gosta deles?
	Adelaide tem um senso de humor nico. Ela diz ter escolhido esses nomes porque assim nunca os esqueceria. E o pai escolheu os nomes do meio.
	Shadoe, Shayde e Spirit.
	Isso mesmo. Tess me contou que Adelaide e o marido se conheceram quando viviam em uma comunidade hippie, e os nomes foram uma homenagem aos velhos tempos.
	Meu Deus...
	Eles no parecem se incomodar com isso. E, se quer minha opinio, acho que os nomes combinam com suas personalidades.
A msica do rgo anunciou o momento do incio da cerimnia. Emma assumiu seu lugar ao lado de Gray, que sorriu ao v-la.
	O que  agora?
	Voc est linda.
O homem podia ser encantador... quando queria.
	Obrigada.
	Por nada. Est quase perfeita.
	Quase? Qual  o problema?
	O vestido.
	O que h de errado com ele?
	 vermelho.
	E da?
	Sempre que voc usa vermelho, os problemas so inevitveis  ele falou.
Emma riu. Problemas? timo. Ele que continuasse pensando assim. O receio do oponente lhe daria alguma vantagem, e precisava dela quando lidava com Gray.
	Se est preocupado, sugiro que no faa nada para provocar-me.
	Deus me livre disso.
O primeiro casal da fila entrou na igreja. Emma e Gray esperaram at que Seth e Spirit alcanassem o meio do corredor, e ento comearam a caminhar lentamente para o altar.
	Estive pensando  ele murmurou quando passaram sob um arco de flores.  Quando nos casarmos, vou querer uma cerimnia linda e grandiosa como esta.

CAPTULO III

 Assunto: No  minha culpa!
Para:      comite@comitecupido.com
De:         shadoe@comitecupido.com
CC:         "Sr. Problema" grayson_shaw@galaxies.net
Vocs no podem me acusar disso. Se Gray pediu Emma em casamento no meio da cerimnia nupcial de Tess, a culpa no , repito, no  minha. No instiguei tal fato. No o sugeri. Droga, nem insinuei que ele devia fazer algo to estpido. (Est tentando estragar tudo, Gray?)
Todas as consequncias provocadas por atos de pura estupidez devem ser atribudas ao verdadeiro responsvel .(Gray-son Shaw, caso ainda no tenham notado).
No caso de tal pessoa ser abenoada pela sorte e encontrar o sucesso... Aceitarei o crdito por todo e qualquer desfecho positivo resultante da mencionada estupidez.
Shadoe, Instigador do Comit Cupido, Nem To Extraordinrio Assim
Gray olhou para Emma a fim de descobrir como ela recebera o comentrio. Humm. Nada bem, a julgar pelo rubor que tingia seu rosto.
 Se tivermos uma cerimnia grandiosa, todos da cidade podero ir  continuou com tom conciliador. Infelizmente, nunca fora muito bom nisso.  As pessoas podero at apostar se vamos conseguir chegar ao fim da cerimnia sem nenhuma briga.
	No chegaremos ao fim desta cerimnia sem uma briga se voc no calar a boca.
	Estamos em agosto... O que acha de setembro ou outubro? Assim j estaremos morando na mesma casa no Natal.
Algo que ele disse a fez tropear. Ou teria sido o tapete da igreja? Preocupado, segurou seu brao com mais fora. A resposta foi uma cotovelada certeira e dolorosa.
	No vou me casar com voc, Gray. E isso  definitivo. Definitivo.  Ele massageava a costela atingida.  Definitivo por enquanto? Definitivo por mais alguns meses?
	Definitivo para sempre. To definitivo quanto  possvel. Definitivo como no vou me casar com voc. Nunca.
Por alguma estranha razo, ela insistia em falar em voz alta. No que Emma notasse. A raiva tinha o poder de fazer essas coisas. Frequentemente, causava um rompimento com todo e qualquer comportamento apropriado. No que estivesse disposto a apontar seus erros. Nunca. No quando estava to ocupado provocando esse comportamento imprprio.
	Ento, est dizendo que  provvel que no se case comigo.  isso?
	Provvel? Vejamos se posso ser mais clara. No me casaria com voc nem que fosse o ltimo homem no mundo.
No me casaria com voc mesmo que fssemos as duas ltimas criaturas vivas no planeta. Ora, no me casaria com voc se todas as armas estivessem apontadas para as minhas costas e eu s tivesse duas opes: casamento ou morte.
Conseguira provocar a reao que queria. Agora seria mais fcil obter as respostas que buscava sem sucesso h seis meses.
	Depois de todo esse discurso, aposto que vai me dizer porque no quer se casar comigo.
	E ainda pergunta?  Emma tropeou no tapete pela segunda vez, mas permitiu que ele a segurasse sem atac-lo.
 Traiu minha confiana. Usou algo que eu lhe contei em um momento privado para obter vantagens comerciais.
	Hoje entendo que devia ter discutido a questo com voc antes de tomar uma deciso. Mas no havia tempo.
	Tempo? Quer dizer que tev um prazo limitado para destruir meu av? Ou melhor, para usar sua natureza infame e implacvel contra toda a cidade! Ou ser que teve pouco tempo para ganhar mais um bilho de dlares s custas de indivduos menos afortunados que estavam no seu caminho?
	Na verdade, perdi alguns milhes de dlares porque esses indivduos menos afortunados que se encontravam no meu caminho no sabiam o que estavam fazendo. Eles conseguiram levar o negcio  runa e colocar seu valor bem
abaixo do que seria justo em vista das condies de mercado. Se eu no houvesse interferido, seu av e boa parte dos moradores da cidade teriam ido  falncia.
Emma jogou o buque no cho.
	Que mentira descarada! Retire o que disse, ou eu...
	Faa o que quiser  Gray interrompeu com tom frio.  Eu no minto. No trapaceio e no engano ningum.
	No. Apenas rouba os negcios de outras pessoas.
	E tambm no roubo.
	Ento, por que  o proprietrio da fbrica de calados de Tess, se meu av anunciou antes sua inteno de adquiri-la? E por que ele ficou to abatido depois dessa transao que est praticamente  beira da morte?
Finalmente!
	Por isso est to zangada? Por Tee? O que foi que ele disse? Fale, e juro que terei a imensa felicidade de esclarecer
toda essa histria.
	Com licena.  Seth recuou pelo corredor e parou ao lado deles.  Caso no tenham notado, estamos no meio de uma cerimnia de casamento. Lembram-se do conceito, no? Sinos, altar, um padre, a igreja, convidados, um homem e uma mulher esperando pelo momento de dizerem o sim...
Soa familiar?
	Eu disse a Gray que no me casaria com ele!  Emma cruzou os braos.  E nada do que disser vai me fazer mudar de ideia.
	Tudo bem, tem o direito de defender sua opinio. Mas  minha irm quem est se casando!
Raine e Shadoe tambm se aproximaram.
	Eles no podem se casar enquanto vocs estiverem no caminho  Raine explicou com pacincia. Depois acenou chamando Spirit.  Tenho uma ideia. Por que no resolvemos tudo isso bem depressa e passamos  cerimnia?
	No h nada a resolver  Emma respondeu furiosa.  E Gray  o nico culpado por tudo que est acontecendo aqui.
	Como sempre  ele resmungou.
	Tem razo. Como sempre. Se no houvesse feito um pedido...
	Gray fez um pedido?  A viva Bryant perguntou do banco mais prximo.  Ei, isso muda todas as probabilidades! Ser que podem manter a notcia em sigilo enquanto corro para fazer uma aposta rpida com o prefeito?
Tess aproximou-se por um extremo da igreja, enquanto Shayde caminhava em sentido contrrio.
	Acho melhor retomarmos a cerimnia daqui  ela sugeriu para o noivo.
	Meu bem, estou pronto para dizer o sim em qualquer lugar. Na frente da igreja, no fundo, no meio... Diga onde quer se casar comigo, e eu estarei l. E quanto a voc  ele disse, olhando para Gray com ar ameaador , se no fosse um dos meus melhores amigos, j teria esmurrado seu nariz.
	E eu mereceria cada soco.
	H algo que eu possa fazer para ajudar? Gostaria de me casar em breve. Hoje, se for possvel.
	Pode dizer a Gray que no vou me casar com ele. Talvez isso ajude.
Shayde olhou para o amigo.
	Gray, meu velho. Lamento ser o portador de to infeliz notcia, mas Emma no vai se casar com voc.  Ele se virou para encar-la. Deve saber que Gray sempre consegue o que quer, por maiores que sejam os obstculos em seu caminho. Essa  uma das qualidades que o definem.
	Eu sei. Infelizmente para ele, o grande Gray Invencvel acaba de encontrar um obstculo intransponvel.
	Uau! Adoro um desafio  Gray anunciou esfregando as mos.
	Emma, querida  Tess murmurou balanando a cabea.  No  sensato desafi-los, especialmente em pblico.
Pensei que j houvesse aprendido a lio.
	 verdade. Por experincia prpria, posso garantir que isso s os torna ainda mais determinados  confirmou Raine.
A viva Bryant brandiu o celular.
	O prefeito Hornsby diz que as chances so de dois para um contra um casamento entre Gray e Emma  anunciou.
 Algum se interessa?
	Gosto dos nmeros  Emma respondeu.  Inclua-me com cinquenta.
Gray balanou a cabea.
	Est jogando dinheiro fora.  uma pssima aposta.
	No h nada que voc possa fazer ou dizer para convencer-me a aceitar seu pedido de casamento. Portanto,  uma tima aposta.
	Veremos.  Ele se virou para os outros integrantes do cortejo nupcial.  Mais algum quer apostar?
	Eu  Shayde respondeu.  Vinte a favor de Gray  disse, olhando para a viva Bryant.
	Dez dlares como Emma estar casada antes do final do ms.
Emma olhou para Tess com ar ultrajado.
	Como teve coragem?
	Lamento, querida, mas estive no seu lugar h alguns meses e sei que no vai ganhar essa.
Gray se deu por satisfeito. Havia progredido mais do que o esperado em uma primeira investida. Se tentasse ir alm, poria tudo a perder. Srio, ele se abaixou para recolher o buque e coloc-lo na mo dela. As flores haviam sofrido as consequncias do impacto, mas teriam de servir.
	Oh, no!  Emma olhou para o buque com ar alarmado.  Vejam s o que eu fiz!
No! Gray a conhecia o suficiente para saber que o problema no era apenas o buque. Emma acabara de se dar conta de que havia perturbado a cerimnia de casamento de uma de suas melhores amigas, o que causaria uma imensa culpa. E na esteira da culpa viriam as lgrimas. Ou agia depressa, ou o casamento se tornaria um completo desastre.
	No  to grave assim  disse.  E s ajeitar o lao. Que tal irmos em frente e deixarmos os pombinhos dizerem o sim?
A sugesto foi recebida pela aprovao imediata de todos. A confuso que reinou por alguns instantes, at todos retomarem seus lugares, serviu para distrair Emma. Dessa vez, quando caminharam para o altar, Gray manteve-se em silncio. Depois, quando ocuparam seus postos, ela do lado de Tess, ele na metade reservada para os padrinhos de Shayde, manteve os olhos fixos em sua futura esposa.
Logo esclareceria toda aquela tolice com seu av, e ele e Emma estariam repetindo as mesmas palavras. O Comit Cupido jamais havia falhado. No comeariam justamente pelo seu casamento. Quaisquer que fossem as chances, qualquer que fosse o esforo necessrio, Emma seria dele.
Gray segurou o brao de Emma.
	Esta deve ser a pior recepo em que j estive.  Ele a conduziu para fora da enorme rea de refeies da Casa Milano, atravs da pista de dana e pela arcada que dividia as duas sees do restaurante. Queria colocar-se ao lado das janelas panormicas de onde era possvel ver Seattle como em nenhum outro local. No que estivesse muito interessado.  Pensando bem, o casamento tambm no foi grande coisa.
Emma respirou fundo e preparou-se para o confronto. Ele parecia furioso. Preferia que Gray houvesse extravasado sua fria na parte mais clara e movimentada do restaurante, em vez de lev-la para aquele recanto silencioso onde reinava a penumbra. Ali tinha a sensao de estar encurralada em um mundo prprio onde s existiam os dois e suas lembranas.
	Est me culpando por tudo que aconteceu na igreja e na recepo?
	E quem mais eu poderia culpar?
	Voc. Se no houvesse cometido a idiotice de falar sobre casamento no meio da cerimnia.,.
	Foi s um comentrio inocente e casual. Quis conversar um pouco enquanto caminhvamos pelo corredor da igreja.
	No foi inocente nem casual. Declarou suas intenes em alto e bom som para meio mundo.
	Que exagero!
	Tudo bem, para meia Seattle. Isso no altera os fatos. No tinha o direito de comear uma conversa pessoal no meio do casamento de Tess.
	No fui eu quem parou no meio do caminho e jogou o buque no cho.
	No vou discutir com voc, Gray. J pedi desculpas a Tess. Por sorte, ela tem um senso de humor maravilhoso.
	A sorte  sua por ela ter se casado com um homem com um senso de humor ainda melhor do que o dela. Passei boa parte dos meus desperdiados anos de faculdade com Shayde, e garanto que no gostaria de conhec-lo num mau momento.
	Otimo. Bem, agora que j discutimos o humor dos noivos, a. conversa est encerrada.  Emma virou-se e continuou caminhando para a poro mais afastada do restaurante. Para sua irritao, Gray a seguiu.  No pode vir comigo.
	E claro que posso.
	No aonde estou indo.
Em algum lugar do estabelecimento havia um armrio contendo as roupas comuns que vestia naquela manh, ao desembarcar do avio. Pena ter um senso de direo to prejudicado. Antes que tivesse de reconhecer mais essa incapacidade, ela se aproximou de um homem alto e sorridente vestindo um fraque elegante.
	Boa noite, srta. Palmer. Sr. Shaw. Sejam bem-vindos
 Casa Milano. Em que posso ser til?
Emma piscou surpresa.
	Como sabe nossos nomes?
	Giorgio conhece todos os nomes  explicou Gray.  Ele  famoso por isso.
	Obrigado pelo elogio, sr. Shaw.
	E ele tambm  famoso por proteger a reputao da Casa Milano. De fato, na ltima vez em que estive aqui, Giorgio quase foi forado a me expulsar do restaurante. Shayde e eu no nos comportvamos muito bem, sabe?
	 verdade. E no permitimos brigas de rua em nosso estabelecimento.
	O qu? Gray e Shayde estavam brigando? Trocando socos? 
	Foi ele quem comeou  Gray explicou apressado.  Eu s me defendi.
	Por que brigaram?
	Meu bom e velho amigo parecia acreditar que Tess e eu estvamos envolvidos. Ele no entendeu que sou homem de uma mulher s.
Oh, no! No outra vez. Era hora de uma retirada estratgica.
Emma olhou para Giorgio.
	Creio ter perdido minhas coisas. Sei que as coloquei em um armrio por aqui. Tem ideia de onde pode ser?
	Por ali, srta. Palmer.  Giorgio abriu uma porta a poucos passos de onde estavam e resgatou uma sacola contendo as roupas que ela usava naquela manh. Sua bolsa tambm fazia parte da pequena bagagem.  O banheiro feminino fica naquele corredor.
	Obrigada.
	Se precisar de mais alguma coisa, no hesite em pedir.  Com isso, o homem desapareceu to silencioso quanto havia chegado.
Emma segurou a sacola entre as mos. Havia mesmo deixado Palmersville naquela manh? Viajara cheia de entusiasmo e alegria, mas nada acontecera como esperava. Em vez de passar um dia especial com as amigas, ficara presa no aeroporto, em um avio e num txi. Lgrimas inesperadas inundaram seus olhos. Aquele dia devia ter sacramentado os laos entre trs mulheres que eram mais irms do que amigas, e perdera essa experincia. Pior, transformara o casamento de Tess em um desastre.
Bem, nesse ltimo quesito contara com uma grande ajuda.
	Com licena  disse, olhando para Gray com uma mistura de ressentimento e condenao.  Preciso mudar de roupa.
	No est chorando, est? Ah, no! Emma, escute...
Sem dar a ela a chance de comear uma nova discusso, ela se dirigiu ao banheiro feminino. E, mais uma vez, descobriu que sempre estivera certa sobre Gray. Ele nem se deu ao trabalho de tentar discutir. Em vez disso, limitou-se a segui-la.
	No pode entrar aqui.
	Por que no?  Arrogante, tocou seu queixo e virou seu rosto para a luz, usando os polegares para secar o rastro deixado pelas lgrimas.  Por que est chorando?
Era difcil resistir ao impulso de atirar-se em seus braos, como fazia antes. No tinha mais esse direito. A ideia provocou novas lgrimas, e ela recuou um passo. Talvez a distncia fsica a ajudasse a controlar os sentimentos.
	No quero conversar. Por favor, v embora.
	No vou deix-la chorando.
	No estou mais chorando. E voc tem de sair. Caso no tenha notado, este  um banheiro feminino. No pode ficar aqui. Vai acabar encrencado.  Bom truque, Emma.
Esse era um argumento que certamente o convenceria.
Gray olhou em volta.
	No ouvi alarmes disparando. E ningum desmaiou em estado de choque.
	Porque no h ningum aqui.
	S voc.
	E eu no costumo desmaiar.
	Ento, no h nenhum problema.
Ele se sentou em uma poltrona estofada perto da porta. Grande e musculoso, o homem representava uma sria ameaa para o seu bem-estar. Queria alguma coisa, e estava certa de que o objetivo em questo a envolvia. Considerando a proposta de casamento, devia ser parte central de sua mais recente empreitada.
Irritada, Emma jogou a sacola sobre a bancada de mrmore e retirou dela as roupas que vestiria.
	Vamos, Gray, saia daqui. Quero mudar de roupa.
	E quem a est impedindo?
	Inferno! Quantas vezes terei de repetir? Voc no pode ficar aqui.
	No terminamos nossa discusso.  Ele tirou a gravata borboleta e abriu os primeiros botes da camisa.  E por que tem de trocar de roupa? Est tima nesse vestido.
Emma desviou os olhos do peito exposto pela camisa aberta. Sabia que aquele era um truque para distrai-la. E da? Ainda tinha a capacidade de controlar-se numa discusso com Gray... desde que mantivesse a distncia fsica necessria para evitar qualquer contato.
	E claro. O nico problema  a cor do vestido. Vermelho.
	 verdade. Apesar disso, voc ficou linda.
	Vou mudar de roupa porque estou indo embora, Embora.	
No se deixaria intimidar pelo tom de voz ameaador. Nem pela postura que faria correr a maioria dos mortais. No. Gray no a perturbava com sua eloquente linguagem corporal. No muito.
	Por que est partindo?  ele quis saber.
	Raine est voltando para o Texas esta noite. Ela sugeriu que dividssemos o txi at o aeroporto, e decidi que essa seria uma tima oportunidade para estarmos juntas, uma vez que no nos vimos antes da cerimnia. Alm do mais, no tenho lugar para dormir. Ir para casa  a soluo mais lgica.  Ela sorriu com doura exagerada.  Lgica, Gray. Devia estar satisfeito.
	Pode passar a noite comigo.
	E claro. Com a viva Bryant do outro lado do corredor, pronta para contar a toda Palmersville que estvamos fazendo...  Maldito Gray! Plantara aquela frase horrvel em sua mente, e agora no conseguia livrar-se dela!  No, obrigada.
		Foi s uma ideia.
Emma dirigiu-se a um dos reservados e comeou a despir-se.
	Por que est aqui? O que pode ser to urgente?
	A lista  longa e detalhada.
	Eu j imaginava.
	Porque me conhece bem.
Sim, conhecia Gray desde sempre. O homem era um modelo de organizao, e talvez fosse esse o segredo de seu sucesso. Primeiro passo, estabelea suas metas. Segundo passo, faa-as conhecidas usando um tom de voz suave a fim de assustar todos que o escutam. Terceiro passo, quando as pessoas no concordarem com suas metas, encontre um caminho por cima, por baixo ou pelo lado de qualquer obstculo.
	V em frente  disse.  Qual  o primeiro tpico dessa sua lista? No quero ser acusada de t-lo feito ignorar itens importantes ou discuti-los em ordem errada.
Para sua surpresa, ele no reagiu  provocao.
	Em primeiro lugar, quero pedir desculpas pelo que aconteceu na cerimonia. No pretendia causar uma comoo.
	Desculpas aceitas. E quanto  recepo?
	No tive culpa.
	Ah, no? Transformou o momento especial de jogar o buque em uma partida de... Ah, nem sei que jogo era aquele!
	No fui eu quem exigiu a repetio do lance.
Emma despiu o vestido e pendurou-o sobre a porta do reservado.
	S sugeri que a noiva jogasse o buque novamente por que havia interferncia demais no campo. Aquilo no era
um jogo de vlei, Gray. No tinha o direito de usar sua habilidade para interferir na concluso final.
	Foi s um tapinha inocente.
	Inocente? Aquela foi uma jogada ensaiada!  Os sapatos foram chutados por baixo da porta e ela vestiu a cala.
 Eu a reconheceria em qualquer lugar.
	O buque teria cado no cho, no fosse por minha interferncia. S quis ajudar.
	 claro. Por isso gritou, "Use os cotovelos, Emma! No h juiz nessa partida!" S queria ajudar.
	Ei, voc no precisa pular. A propsito, notei que ainda salta como uma gazela, mesmo usando salto alto.
	Instinto!  Emma saiu do reservado usando as roupas com que chegara naquela manh.  Deve saber o que .
Passamos anos praticando, lembra?
	Oh, sim! Quase alcanamos a perfeio.
	Diga isso  pobre mulher com cabelos vermelhos e laranja. Voc quase a derrubou quando interceptou o buque.
	No tem problema. Ela no seria a prxima a se casar, mesmo que o pegasse. Por que deixar a pobrezinha alimentar falsas esperanas?
	Que coisa horrvel!  Com um p dentro do sapato, ela saltou sobre o outro procurando pelo calado que faltava.
Onde ele poderia estar? No podia t-lo chutado to longe.
 No costuma ser to cruel, Gray. O que deu em voc?
	Estou sendo honesto. No existe a menor possibilidade de uma mulher como aquela subir ao altar. No sei nem se ela quer se casar. Alm de no ter sido convidada para o casamento, acho que ela estava l com a nica inteno de estragar a festa.
	Ah, pelo amor de Deus! De onde tirou essa ideia?  Finalmente encontrava o sapato sob uma das pias.
	Em primeiro lugar, ela no estava na igreja. Eu a teria visto. Aquele cabelo no teria passado desapercebido. Portanto, a mulher estava invadindo a festa. Isso acontece com frequncia, sabe?
	Talvez ela tenha se atrasado e perdido a cerimnia.
	No. Ouvi a me de Tess perguntando quem era ela. Ningum a conhecia.
Calada, Emma abaixou-se para prender as tiras dos sapatos nas pequeninas fivelas de ajuste.
	Ainda no explicou porque ela no pode se casar.
	O qu? No viu as letras tatuadas nas articulaes de seus dedos? E eram dedos bem peludos!
	E da?
	As letras formavam palavras. Deploro homens. Quero dizer, acho que eram essas as palavras. Os pelos prejudicavam a leitura. Suponho que possa ser devoro homens. De qualquer maneira, havia um ponto de exclamao depois da palavra homens e um crnio sobre dois ossos cruzados em seu dedo mnimo. No podia permitir que ela pegasse o buque de Tess. De jeito nenhum.
	Mesmo assim, a interferncia justificou a repetio do arremesso.
	Isso  o que voc diz.
	Exatamente.  o que eu digo.
No perderia tempo discutindo. Estava pronta para partir. S precisava pegar o vestido no reservado e resgatar sua bolsa sobre a bancada perto de Gray. Talvez ele ainda quisesse discutir, mas optaria pela soluo dos covardes e escaparia na primeira oportunidade. O nico problema com seu plano era que ele bloqueava a sada.
Como se adivinhasse sua inteno, ele se levantou e caminhou em sua direo. Uma opresso inesperada tomou conta de seu peito. Quando o homem se tornara to grande e ameaador? Nunca se sentira intimidada por sua estatura impressionante.
At agora.
	 hora de voc conhecer o segundo tpico da minha lista.
Seria o anncio um aviso?
	E qual ?  Fazia um grande esforo para se mostrar corajosa, mas era intil. Se fosse um cachorro, teria o rabo entre as patas traseiras e a cabea baixa.
	Voc.
CAPTULO IV
Assunto: Que ideia foi essa? 
Para:      "Encrenca Extraordinria"
shadoe@comitecupido.com      
De:         grayson_shaw@galaxies.net
Voc disse que cuidaria de tudo. No disse que a faria chorar! Tem ideia de quanto ela estava ansiosa por aqueles momentos com Tess e Raine? No podia pensar em um plano melhor do que faz-la perder o avio? E tambm o fez perder a reserva no hotel. Onde esperava que ela passasse a noite? Comigo? Como pretende resolver essa encrenca? No estou nada satisfeito, Shadoe.
Gray
Assunto: Re: Que ideia foi essa?
Para:      "Sr. Problema" grayson_shaw@galaxes.net
De:         shadoe@comitecupido.com
Esse  o problema de um amador envolver-se no negcio de promover casamentos.
Eu avisei que no ia dar certo se voc soubesse demais. Mas voc me ouviu? No!
E deixe-me dizer mais uma coisa... Considerando o que voc fez na cerimnia e na recepo,  muita ousadia reclamar dos meus atos. Sendo assim, escute bem, meu velho. Caso tenha esquecido o bvio, eu sou o Instigador do Comit
Cupido. Isso significa que eu instigo a formao de pares. No voc. Agora fique fora do meu negcio ou pode dar adeus ao seu sonho de romance!
Shadoe, Instigador do Comit Cupido
Emma recuou um passo.
	Lamento, mas vai ter de excluir-me da sua lista. Raine est esperando por mim perto dos elevadores. Tenho de ir embora.
Gray colocou-se diante dela, no caminho para a porta.
	Raine vai ter de esperar.
	Impossvel. Ela tem reserva em um vo s...
	Por que estava chorando?
	J disse que no quero discutir esse assunto.
	Talvez eu possa adivinhar.
	Prefiro que nem tente.
	Conheo voc, Emma. Houve um tempo em que no tnhamos segredos um para o outro. Um tempo em que confivamos um no outro. Agora sou obrigado a adivinhar o que est acontecendo com voc.
	Porque nosso relacionamento mudou. Voc o fez mudar. Ou ser que esqueceu esse pequeno detalhe?
	E voc no sabe lidar com mudanas, no ? Por isso est to aborrecida. Porque agora tudo  diferente. Tee e Palmer. Ns dois. O relacionamento com suas amigas. Nada  como antes.
No perderia tempo negando a verdade.
	Vou me ajustar. Sempre me ajusto.
	Como? Afastando-se de tudo? Afastando as pessoas que fazem voc sofrer?  Ele se aproximou um passo.  Tess no vai abandon-la.
	Eu sei.
	Acho que no.  Ele pousou as mos em seus ombros.  Escute o que estou dizendo, meu bem. Ela no vai deix-la.
	Sim, eu sei, ela est apenas se casando  a resposta soou to impaciente quanto os movimentos que Emma fazia para livrar-se do contato fsico.
Gray manteve o contato.
	Sua cabea sabe, mas seu corao no est prestando ateno. Tess no vai embora. No  como quando seus pais morreram.
	 claro que no. Tess no morreu...  Horrorizada, sentiu que a voz tremia e no conseguiu evitar que a verdade brotasse de seus lbios.  Mas sinto como se ela tivesse morrido.
Gray abraou-a.
	Perdeu seus pais quando tinha apenas cinco anos de idade. Tee e Lizzie a adotaram e levaram para um lar seguro, mas isso no durou muito. Sua av tambm morreu quando voc tinha doze anos. Tantas perdas em to pouco tempo de vida... Compreendo que no goste de mudanas. Entendo que fuja delas.
	Eu no fujo.
	Talvez no considere seu comportamento uma fuga. Quando era pequena e ficava aborrecida com alguma coisa, voc se escondia na cabana da rvore que Tee e eu construmos em Nugget Creek. Hoje voc no corre mais para l,
no no sentido concreto? mas emocionalmente... Sim, voc ainda vai se esconder na cabana. Foge para um lugar fami
liar e seguro, e fica l at a dor passar.
	O nome disso  costume, e  bom manter alguns hbitos.  confortvel.
	No quando eles no fazem parte do repertrio esperado para a sua idade.  Ele tocou seu queixo e a fez erguer a cabea.  Ainda estou aqui, meu bem. E voc ainda tem seu av, apesar dessa enfermidade que hoje o incomoda. E
suas amigas. Nenhum de ns vai deix-la. Prometo.
	Mas no  a mesma coisa. Nunca mais ser. Perdi aquelas ltimas horas com Tess e Raine, e isso  algo que no posso recuperar.
	Lamento, Emma. Gostaria de poder fazer alguma coisa nesse sentido.
	No pode. Ajudar-me deixou de ser parte da sua descrio de cargo.
	Pode voltar a ser.
	O que tivemos aca...  Gray deslizou a mo por suas costas e ela perdeu a capacidade de raciocinar. O que estava dizendo? Oh, sim.  O que tivemos...
Os dedos alcanaram seus cabelos e removeram as flores que ainda os enfeitavam. Emma ficou em silncio, reconhecendo o antigo desejo que s um homem podia saciar. Sua essncia a preenchia, envolvia, vencia toda e qualquer resistncia. Mais flores caram no cho. As ptalas brancas e vermelhas formavam um crculo que os isolava do resto do mundo. Era como se estivessem unidos por um ritual ancestral.
	Pode fugir, mas isso no vai mudar nada  Gray anunciou.
	No estou fugindo.
	Est, mas  intil, porque irei atrs de voc e no desistirei. No vou deix-la, Emma. Nunca.
	Por que est fazendo isso comigo?
	Porque a quero.
	Querer no  o suficiente. Sabemos disso h seis meses.
	 um comeo. Se tratarmos essa primeira etapa com cuidado, ela poder se transformar em algo mais.
	Deixe-me ir, Gray.
	No posso...  E ele a beijou.
O beijo era uma promessa que falava de esperana, de f e de um tipo de amor que era eterno. Sugeria um compromisso que Emma no podia permitir por no confiar em sua motivao. No confiava nele, porque no tinha certeza de que ele no a trairia novamente.
	No!  Escapando do abrao, ela rompeu o crculo sagrado das flores.  Por alguma razo, voc decidiu que serei sua esposa. Mas o que eu quero no importa, no ? Tomou sua deciso, e o assunto est encerrado. Ou aceito seu ponto de vista, ou encontrar um jeito de fazer-me, aceit-lo.
Gray no disse nada. No precisava falar. A tenso que percorria seus msculos era evidente nos punhos cerrados. De alguma forma, talvez por pura sorte, Emma chegara muito perto da verdade.
	Eu nunca usaria a fora.
	Mas encontraria uma maneira de alcanar seu objetivo, no ?  Ela voltou ao reservado onde trocara de roupa e pegou o vestido. Sem saber o que fazer com ele, enfiou-o na sacola de papel. A seda vermelha escapava da embalagem e arrastava no cho.
	Estou indo embora. E no quero que me siga. O que tivemos acabou. Conforme-se.
	Voc me ama, Emma. Esse amor existe desde que era uma adolescente.
	E da? Tambm amo chocolate, mas no posso com-lo em excesso, ou fico doente.
	No sou chocolate.
	Tem razo, voc  mais do que isso.  uma mousse gordurosa e calrica para a qual no posso nem olhar sem comear a me coar.
Com isso, Emma virou-se e saiu do banheiro feminino arrastando a seda vermelha do vestido na sacola.
Gray ficou parado onde estava, olhando para as ptalas sobre o piso de mrmore.
	Tenho notcias para voc, meu bem  murmurofi.  Com ou sem coceira, vai ter de engolir essa mousse de chocolate. E garanto que vai gostar dela.
Shadoe abriu o telefone celular e digitou um nmero.
	Sou eu  disse sem rodeios.
	Tudo pronto?  Adelaide perguntou do outro lado.
	Fiz tudo que voc pediu, mas no gosto disso. E se alguma coisa der errada? Emma pode se machucar.
	No vai acontecer nada e ningum vai se ferir.
	Talvez deva ficar com ela at...
	Eu avisei que esse seria um caso difcil.
	Eu sei, mas no estou habituado a sentar no banco do passageiro.
	Vocs instigadores so todos iguais. Acreditam que ningum no mundo pode lidar com um simples caso de amor
sem sua ajuda.
	Por que acha que o ndice de divrcios  to alto? Porque no existem bons instigadores em nmero suficiente para promover bons romances.
	E o que me diz de um romance para voc?
	O que est insinuando, me?
	Nada. S quero saber quando vai instigar um envolvimento para voc mesmo. Eu no teria de passar a vida me envolvendo nos assuntos alheios se tivesse netos com que ocupar-me.
	Em primeiro lugar, no estou interessado em encontrar algum para mim. Deixei essa questo bem clara quando me juntei  empresa. Lembra-se de que essa foi uma das condies para que eu aceitasse o emprego, no?
	Confesso que me recordo vagamente de alguma coisa nesse sentido.
	timo. Quanto aos netos, Shayde e Tess podem cuidar desse assunto. E se eles no resolverem o problema, converse com Spirit.
	No, obrigada. Prefiro que sua irm se case antes de discutirmos essa questo. O que mais?
	Como assim, o que mais? O que a faz pensar que tenho mais a dizer?
	Conheo voc, Shadoe. E muito parecido com Gray. Sempre tem mais alguma coisa a dizer.
	Tem razo, eu tenho. Sabe de uma coisa, me? Mesmo que tenha uma dzia de netos, vai continuar bancando o cupido dos tempos modernos. No conseguiria resistir...
	Porque sou uma romntica incorrigvel, querido. Como voc.
Antes que Shadoe pudesse responder, ela desligou.
	No sou romntico! Apenas gosto de me meter nos assuntos alheios.
Era tpico. Finalmente sabia o que queria dizer  me, e ela desligava o telefone sem ouvi-lo. E devia estar rindo muito.
Mes!
Shadoe fechou o celular. Quem podia viver com elas? Ningum podia viver sem elas.
Ainda.
Emma bateu a porta do txi e virou-se para o Hotel King's Crown. Luzes cintilantes e convidativas brilhavam atravs da chuva. Com um ronco do motor, o carro arrancou derrapando sobre o asfalto molhado. As rodas traseiras acertaram em cheio uma enorme poa de gua, criando um jato que caiu como um chuveiro sobre Emma. No tinha importncia. No conseguiria ficar mais suja ou molhada.
As portas automticas do hotel se abriram e ela caminhou mancando para dentro do prdio. Com um p de sapato sem o salto e o outro com a tira arrebentada, mancar era a nica coisa que podia fazer. Determinada, passou pelo saguo a caminho dos elevadores, sem se atrever a olhar para os lados. Tambm no olharia para trs, porque sabia o que veria. Um terrvel rastro de gua e sujeira.
 Por favor, senhorita...  a voz alarmada soava atrs do balco de recepo.  Por favor, senhorita, precisa identificar-se!
Emma ignorou o pedido, mesmo sabendo que essa no era a escolha mais inteligente. Um segundo mais tarde, ouviu o recepcionista pedindo ajuda da segurana. Andando mais depressa, torceu para que ningum a detivesse, ou poderia dar adeus a sua ltima esperana. No era hspede do hotel. No tinha uma bolsa ou documentos que pudessem identific-la. Alm de estar ensopada da cabea aos ps, a frente da cala e da camisa, antes vermelhas, agora eram pretas depois de terem limpado o cho do aeroporto. Para o recepcionista, devia parecer uma moradora de rua tentando invadir as dependncias do luxuoso estabelecimento.
Felizmente, Emma conseguiu saltar para dentro do elevador no exato instante em que o primeiro segurana surgiu no saguo. Aflita, pressionou o boto para o trigsimo-ter-ceiro andar. Pela primeira vez naquele dia, alguma coisa deu certo para ela. As portas se fecharam e a cabine metlica iniciou a rpida subida aos andares mais exclusivos do hotel. Uma poa de gua suja se formava sob seus ps, e ela mudou de lugar. Segundos depois outra poa se formava embaixo dela. Se continuasse assim, qualquer um seria capaz de encontr-la sem nenhum trabalho. Tudo que teriam de fazer seria seguir as pistas imundas deixadas por sua passagem.
O elevador parou e Emma saiu apressada, caminhando pelo corredor to depressa quanto era possvel com aqueles sapatos arruinados. Na frente do quarto da viva Bryant, ela parou hesitante. Sabia que era tarde e que os idosos dormiam cedo, mas tambm sabia que eles no tinham um sono muito pesado. Seu av nane estava sempre reclamando de insnia? Decidida, bateu devagar, temendo que Gray a ouvisse do outro lado do corredor.
	Viva Bryant? Sou eu, Emma.  Silncio. Depois de alguns segundos sem resposta, ela repetiu o chamado.  Por favor, abra a porta! Preciso de ajuda!
O sinal sonoro do elevador soou no final do corredor, anunciando a chegada de algum. E se fosse a segurana? Respirando fundo, ela desistiu da cautela.
	Viva Bryant!  gritou, esmurrando a porta com toda a fora que tinha.  Por favor, abra!
Do outro lado do corredor, uma porta se abriu com estrondo assustador. Emma suspirou resignada e virou-se para Gray que, vestindo apenas a cala do pijama, exibia uma expresso aborrecida de quem havia sido acordado. Sabia como acalm-lo nessas circunstncias, mas a operao envolveria beijos e abraos e causaria outros efeitos simultneos, como, por exemplo, o desaparecimento daquela cala. Era uma pena, porque precisava de beijos*e abraos. Se ao menos pudesse contar com aquela cala em seu devido lugar...
Gray encarou-a incrdulo.
	Que diabo aconteceu com voc?
	 uma histria longa e trgica.  Emma olhou para o homem corpulento que se aproximava furioso.  Por favor, deixe-me entrar. Depressa.
Ele cruzou os braos sobre o peito.
	Por que eu a deixaria entrar?
	Porque, se no deixar, aquele segurana vai me jogar para fora do hotel.
	Tem alguma outra razo mais convincente?
	Fui assaltada.
O humor desapareceu de seus olhos. Gray praguejou alguma coisa incompreensvel, agarrou seu brao e puxou-a para dentro do quarto, fechando a porta em seguida.
	O que aconteceu?
	Pode me emprestar uma toalha? Alm de ter sido as saltada, tambm estou ensopada.
As batidas na porta soaram no mesmo instante em que ele apontou para o banheiro.
	Tome um banho. H um roupo do hotel pendurado atrs da porta. Pode vesti-lo. Eu cuido da segurana.
Emma no perdeu tempo. No interior do banheiro, trancou a porta e encostou a orelha nela. Ouvia vozes abafadas, mas no conseguia entender o que diziam. De qualquer maneira, as palavras de Gray deviam ter sido convincentes, porque um minuto depois ela escutou a porta da sute sendo fechada.
	Saia da e v para o chuveiro. Vou telefonar para a recepo e verificar se a butique ainda est aberta. Voc precisa de roupas.
Emma recuou com um suspiro cansado. Gray a conhecia to bem! Talvez fosse esse o problema. No havia mistrio.
	Pode ligar, se quiser, mas garanto que no h mais nada aberto.
	Eu cuido disso.
	 claro.
Ainda no havia aprendido a lio? Quando queria alguma coisa, Gray era implacvel.
Quando saiu do banheiro coberta apenas pelo roupo do hotel, ela o encontrou sentado na saleta da sute. Servindo-se da ampla variedade de bebidas oferecida pelo estabelecimento, ele abriu uma pequena garrafa de usque e despejou o lquido dourado em um copo.
	Beba isto  ordenou.  Providenciei algumas roupas. Elas sero trazidas daqui a pouco com o lanche. Afinal, o que aconteceu?
Emma no discutiu. Precisava de uma bebida forte que a ajudasse a relaxar. Tampando o nariz, sorveu todo o contedo do copo de um s gole e sentiu o lquido passando por sua garganta, deixando um rastro de fogo que a fez engasgar.
	Odeio essa coisa!
	Isso explica porque tampou o nariz.
	 o nico jeito de conseguir engolir algo to amargo.
	Estou esperando, Emma. O que aconteceu?
	Raine e eu s tivemos tempo para um caf. Depois, quando ela correu para pegar o avio, eu fui assaltada. O ladro levou minha bolsa.
	Por que no telefonou para mim?
	Porque no tinha o seu nmero.
	Francamente, Emma! Podia ter conseguido o nmero do hotel no aeroporto.
Ela deixou o copo sobre a mesa.
	Voc sabe porque no liguei. No somos mais um casal.
	E por isso no pode pedir minha ajuda quando est com problemas?
	Prefiro tentar resolver meus problemas sozinha.
	No estamos falando de um problema qualquer. Um assalto  coisa sria. Est machucada? Precisa de um mdico?
	No. Devo ter alguns hematomas e arranhes em pontos estratgicos, mas no preciso de um mdico.
	Como isso aconteceu?
Emma aninhou-se em uma das poltronas da saleta. O cansao e o efeito rpido do usque provocaram um bocejo que ela tentou conter sem muito sucesso.
	Estava na fila para passar pelo detector de metais quando aquele bandido usou o truque da trombada.
	Trombada?
	Sabe como . Ele veio correndo em minha direo, trombou em mim, agarrou minha bolsa e continuou correndo.
Infelizmente, a bolsa continuava presa ao meu corpo.
	Ele a arrastou?
	S por alguns metros. Consegui soltar meu brao da ala da bolsa antes do pontap.
	Pontap?
	Acalme-se, Gray. Ele no me acertou. E o que aconteceu em seguida foi culpa minha.
	Pelo amor de Deus, no me diga que foi atrs dele!
	Se no quer que eu diga...
	Voc foi atrs dele!
	Foi voc quem disse.
	No posso acreditar! Em que estava pensando?
	Fiquei to furiosa, que no pensei em nada.
	Podia...
	Para sua informao, podia ter pego o infeliz, se ele no houvesse corrido para fora do prdio. Estava chovendo, e meus sapatos eram altos. Tropecei em um buraco na calada e mergulhei numa poa de gua. O ladro escapou com meu dinheiro, meus cartes de crdito e minha passagem area. Oh, e com o vestido de dama de honra!  Perceber repentinamente que havia perdido o vestido a aborreceu mais do que tudo, e Emma no conseguiu conter as lgrimas.  Oh, Gray! O Vestido estava na minha bolsa!
	Posso imaginar. Como um leno vermelho diante de um touro...
	No havia pensado nisso, mas  possvel.
	No importa. Roupas podem ser substitudas, mas... Podia ter se machucado, Emma.
	Estou bem, no estou?
Ele apontou para os arranhes e hematomas que cobriam suas pernas e parte dos braos.
	Acha que isso  estar bem?
Emma sentou-se sobre as pernas e tentou esconder os braos nas mangas do roupo.
	Tudo bem, podia estar melhor, mas... Ah, no importa. Um dos policiais ficou com pena de mim e me deu o dinheiro para pagar o txi at aqui. Tenho seu endereo em um pedao de papel no bolso da minha cala. Gostaria de enviar um carto de gratido junto com  dinheiro, mas minha cala est to ensopada que temo ter perdido o endereo.
	Encontraremos o tal policial de qualquer maneira. Pelo menos teve o bom senso de vir para c, mesmo que no tenha sido com a inteno de me pedir ajuda.
	Pensei que, naquelas circunstncias, seria melhor pedir ajuda  viva Bryant.
	Por qu?
A pergunta simples a atingiu como um tiro certeiro.

CAPITULO V
Assunto: Voc est morto!
Para:       "Encrenca Extraordinria"
shadoe @ comitecupido.com
De:	grayson_shaw@ galaxies.net
Djessa vez voc foi longe demais. Eu perguntei como ia fazer para que ela passasse a noite comigo, mas promover um assalto? Assalto? Ela podia ter sido ferida, Shadoe! Podia ter ido parar em um hospital. O bastardo tentou chut-la quando agarrou sua bolsa!  melhor ficar longe de mim, porque, se conseguir pr as mos em voc, considere-se morto!
Gray
P.S. Quero as coisas dela de volta. E providencie para que o vestido de dama de honra volte em perfeitas condies, ou ser o primeiro homem a morrer duas vezes!
	Gray...
	Responda, Emma. Por que foi bater no quarto da viva Bryant, em vez de vir pedir minha ajuda?
Emma hesitou, sem saber o que devia dizer. A verdade a deixaria muito vulnervel. Mas, conhecendo Gray, sabia que ele no se contentaria com menos.
	Eu quis procur-lo...
	Certo. Por isso estava batendo na porta de outra pessoa.
Lgrimas ameaavam rolar de seus olhos. Precisava cont-las, ou no sobreviveria s prximas horas.
	No tem ideia de como quis procur-lo.  Ou de como esse impulso a amedrontara.
	Ento, por que no me procurou?
Como poderia explicar todas as razes que a impediam de pedir sua ajuda em um momento de crise? A separao fora devastadora. Ainda sofria por ele, ainda ansiava pelo que tiveram, pelo que poderiam ter vivido, caso houvessem conseguido solucionar todas as diferenas. O problema era que no podia confiar nele. No mais. E como construiriam um relacionamento bem-sucedido sem confiana? Mas o principal motivo pelo qual no fora procur-lo havia sido o medo. Puro e simples. Temera abrir uma porta que o deixaria entrar em sua vida novamente, porque tinha medo de sofrer outra vez.
	Seria fcil procur-lo  admitiu.  Seria mais fcil ainda cair em seus braos e deixar voc cuidar de todos os meus problemas. Mas... no posso continuar trilhando o caminho mais fcil.
	E eu sou o canjinho mais fcil?
Ela assentiu.
	Depois do nosso rompimento, percebi que dependia de voc para tudo.
	Mas eu tambm dependia de voc. Era uma condio mtua.
A revelao era surpreendente.
	Est falando srio? Nunca imaginei...
Gray levantou-se e caminhou at a porta do quarto, onde se virou para encar-la.
	Por qu? Porque sou um homem? Porque os homens so fortes e no precisam de ningum? Ou sou eu quem tem essas caractersticas?
	E voc.  Sabia que ele no gostara da resposta, mas tinha de ser honesta.  Aprendi que s serei capaz de continuar vivendo se aprender a cuidar de mim, sem correr para voc cada vez que tenho um problema. Correr para voc tornou-se um pssimo hbito.
	S porque voc est sempre se metendo em encrencas. E eu estou sempre tirando voc delas.
	No acha que  hora de aprender a sair delas sozinha?
 Belas palavras. Entretanto, l estava ela na sute de Gray, sentada em uma poltrona confortvel, enquanto ele resolvia seus problemas como sempre havia feito.
	Deve ser parte da minha descrio de cargo. Estou fazendo a mesma coisa h quase trinta anos, Emma.
	Mas vai ter de parar. Eu mudei, graas a voc. Se no posso comer chocolate, nunca mais comerei chocolate.
Um sorriso raro e tentador iluminou seu rosto.
	Pensei que eu fosse uma mousse.
	 verdade.
	Pois bem, acho que se comer bastante mousse, vai desenvolver uma certa resistncia contra o quadro alrgico. O que me diz? Devemos tentar?
Era difcil conter o riso, mas precisava se esforar. No queria voltar no tempo e ceder, cair em seus braos e mergulhar na loucura de sentir aquelas mos em seu corpo.
Era hora de uma retirada estratgica.
	Bela tentativa, Gray. Mas essa ttica  to intil quanto todas as outras. Desista, est bem?
	Ttica?
	Conhece a palavra. Aposto que foi voc quem a ps no dicionrio. Voc nunca d um passo sem antes traar um plano.
	Vamos voltar a esse assunto?
	Encare os fatos. Era implacvel quando criana, e  ainda mais implacvel agora que cresceu. Faz o que  necessrio para alcanar seu objetivo. E, nesse momento, seu
objetivo  destruir minha sanidade.
	Estou conseguindo?
	Pode apostar nisso.
	Voc sempre soube que tipo de homem eu sou  Gray comentou com tom srio.  Ou melhor, deveria saber.
	 claro que sei. Mesmo assim, nunca imaginei que pudesse ser implacvel comigo, com Tee, ou com nossos amigos e vizinhos. No acredito que ainda no tenha entendido tudo isso.
	Eu entendo.
	Ento, como teve coragem de roubar a empresa do meu av?
Gray passou a mo na cabea, e de repente ela se deu conta de que ambos estavam exaustos. Havia sido um dia difcil que, a julgar pelas aparncias, ainda estava muito longe do fim.
	Voc disse que estava preocupada com Tee. Tambm disse que os negcios haviam sofrido duros golpes e que, por conta disso, a companhia era alvo fcil para empresrios inescrupulosos. Analisei a questo e descobri que voc estava certa.
	E da? Isso no lhe dava o direito de tomar a companhia das mos dele!
	Teria sido melhor se um estranho ficasse com o negcio?
	Confesso que sim. Pelo menos no teria sentido a dor da ofensa pessoal. Teria sido apenas um negcio.
	Mas foi apenas um negcio.
	Est falando ccfmo seu pai.
Gray ficou em silncio, paralisado, e ela percebeu ter cometido um grave erro de julgamento.
	Nunca mais ouse comparar-me a meu pai.
	Desculpe. Sei que no  como ele.
	No mesmo.
	Mas a maneira como lidou com a situao...
	No  a mesma que Paddy teria escolhido.
	Tem razo. Ele teria feito tudo com mais charme.
	E isso que quer? Charme? Quer que eu elogie sua beleza e abra caminho at sua cama? Sabe o que acontece depois, no? Eu sei. Vi essa mesma cena muitas vezes enquanto crescia. Depois de saci-la, eu partiria no meio da noite levando tudo que pudesse encontrar de valor.
	Voc no iria embora.  Pelo contrrio. Voltaria sem pre querendo mais.
	Se sabe disso, nunca mais esquea o que acabou de dizer. Acha que sou implacvel? Paddy podia ser professor nessa matria. A nica diferena  que ele usa palavras bonitas e argumentos imbatveis sobre como est prestando um favor quele que  roubado. Mas isso no muda sua natureza. Meu pai  um vigarista. Sempre foi e sempre ser.
	Ningum o est acusando de utilizar os mtodos de Paddy para conseguir o que quer  ela tentou aplac-lo.
	No?  exatamente o que voc est fazendo. Mas h uma diferena. Quando vou atrs de voc, pode prevenir-se e sabe o que esperar. Anuncio o que quero, quando quero, e como espero receber o que quero.
	Eu sei. Trabalhei para voc, lembra-se? Conheo muito bem os mtodos de ao do Sr. Preto e Vermelho. O balancete  tudo que importa. No discutimos os nmeros. No debatemos as contas. E, principalmente, no aceitamos compromissos.
	Discutir e debater?  Furioso, ele se dirigiu ao bar e pegou outra garrafa de usque, despejando todo o contedo da dose em um copo.  No quer dizer mentir e enganar?
Mentir? Enganar? Cus! Conhecia aquele homem desde o bero, e nunca fizera a ligao bvia!
Chocada, Emma levantou-se e foi encontr-lo no bar.
	Acha que discutir um assunto  o mesmo que enganar algum?
	No vou tentar convenc-la sobre meu ponto de vista s para conseguir o que quero.
	Porque, na sua opinio, isso  enganar algum?
	Quantas vezes vou ter de repetir? No sou Paddy. No fao trapaas.
	Eu j notei que  diferente de seu pai. Mesmo assim, os fatos permanecem inalterados. Com voc  sempre tudo ou nada. Assumir essa postura inflexvel impede qualquer tipo de compromisso. E comprometer-se no  mesmo que enganar algum.  encontrar um meio termo que possa satisfazer na mesma medida as duas partes.
	Sei o que significa compromisso.
	Sabe? Desde que o conheo,  sempre tudo igual. Ou  do seu jeito, ou no  de jeito nenhum. Paddy usa o charme e a mentira para conseguir o que quer. Voc simplesmente toma o que quer. Com o mtodo de Paddy, pelo menos eu ficaria com um sorriso nos lbios.
	Porque nunca viu a trilha de devastao que ele deixa por onde passa. Era pequena demais na poca dos fatos para lembrar-se do que aconteceu com os Putnam. Duvido que eles tenham sorrido depois de perderem a fazenda graas a um dos truques de enriquecimento rpido de meu pai.
	Voc interferiu e impediu que eles perdessem tudo. Lembro-me de ter ouvido Tee comentando essa histria.
	Algumas coisas no podem ser consertadas. Apesar de todo o esforo que fiz, eles perderam a fazenda. Garanto que os Putnam no incluem em suas oraes dirias ningum que tenha o sobrenome Shaw. E no posso culp-los por isso.
- Mas voc tentou. Fez tudo que estava ao seu alcance para ajud-los. Como um homem assim pode dar as costas para o melhor amigo, para o homem que o conhece desde a infncia?
Os olhos de Gray eram frios, inexpressivos.
	Essa  a verso de Tee sobre os fatos?
	Voc sabe que meu av o defenderia at a morte. Ele recitou todas as desculpas possveis para explicar seu comportamento. Mas o que importa  que voc  o atual proprietrio da Palmer Calados, enquanto meu av, o antigo dono da companhia, no tem sequer um emprego nela. Pior de tudo  saber que eu joguei a empresa em suas mos. Francamente, nunca imaginei que pudesse tirar proveito de nossas conversas privadas.
	Refere-se s conversas que tnhamos na cama?
	Exatamente. Confiei em voc num momento de fraqueza, e no hesitou em tirar proveito da minha confiana. Onde est a diferena entre o que fez comigo e o que seu pai fazia com os outros?
	E simples. Eu no tomei o que queria e fui embora. Voc me deixou.
	E como poderia ficar a seu lado, depois de ter me usado para apoderar-se dos negcios de meu av?
Gray terminou de beber o usque e deixou o copo sobre a mesa.
	Vou explicar essa histria pela ltima vez. Tee no trabalha na Palmer Calados porque no concorda com as mudanas que eu planejei para a companhia. So essas mudanas que vo devolver a sade financeira da empresa. Num ataque de raiva, ele se demitiu e tentou organizar um motim. Seu av fez de tudo para levar com ele o maior nmero possvel de funcionrios e diretores. Felizmente, o bom senso prevaleceu e ningum perdeu o emprego.
	Exceto Tee.
	A nica coisa que o impede de voltar ao trabalho  o orgulho. Tee ser bem-vindo na fbrica quando quiser retornar.
	Mas no como um homem de comando.
	No.
	Espera que ele passe de proprietrio a empregado?
	Pessoalmente, no me importo com tudo isso. A escolha  dele. De qualquer maneira, Tee no teria sido proprietrio da Palmer Calados por muito mais tempo, mesmo sem minha interferncia. Ele estava a um passo da falncia.
	E voc o salvou.
Gray no respondeu ao comentrio sarcstico. Cansada, Emma encarou-o abatida.
	Foi to srio assim?  perguntou.
	Pior.
	Meu Deus...
	Minha reao foi um pouco mais forte.
Ela levou um minuto para recuperar a compostura.
	Bem, isso no muda o fato de ter trado minha confiana.
	E voc nunca me perdoar por isso.
Queria perdo-lo. Mas os princpios que estavam em jogo eram importantes demais para que pudesse ceder.
	No. No posso.
	Otimo. No me perdoe. No preciso de perdo. S h uma coisa que desejo de voc.
	O que ?
	Adivinhe...
Emma umedeceu os lbios. No precisava fazer grande esforo para imaginar qual era o propsito de Gray. Sentia-se exposta, vulnervel, e a sensao crescia na medida em que ele se aproximava. Tinha de det-lo enquanto ainda podia.
	 melhor no tentar nada  disse.  O servio de quarto est a caminho.
	No estou com fome. No por comida.
	Engraado... Voc est com cara de faminto.
	Predador  a palavra certa, meu bem.
	Ah... - No precisava utilizar mais do que meia dzia de neurnios para descobrir quem era a presa ali.  Bem,  bom saber que  um homem controlado, algum capaz de frear impulsos e emoes e subjug-los com a razo. E muito
bom saber disso. Caso contrrio, ficaria muito preocupada.
	Sugiro que comece a se preocupar.
Emma estendeu os braos num gesto defensivo.
	No vai querer fazer nada de que no possamos nos arrepender. E no vamos nos arrepender de cairmos naquela cama, embora isso seja errado e...
A frase terminou num grito apavorado no instante em que ele a segurou pelos braos e empurrou sobre a cama.
	Voc nunca foi muito boa com a lgica. No sabe nem argumentar para escapar da minha cama. Por que ser?
	Porque, no fundo,  aqui que quero estar.  A confisso o surpreendeu.  Mas isso no significa que devo ficar.
	Estou muito cansado, Emma.  Os lbios aproximaram-se dos dela.  Cansado de ficar sozinho, de lutar, de
esperar voc superar a raiva.
	Nesse caso, no devia ter tomado a empresa de Tee.
	O fato de ter assumido o controle da Palmer Calados no prejudicou ningum. E no  uma razo vlida para terminar nosso relacionamento.
	Ser que no entende? No me oponho ao fato de ter tomado o controle da companhia. E a maneira como agiu que no consigo aceitar. No vou ficar com um homem em quem no consigo confiar.
As mos encontraram o n da faixa do roupo em torno de sua cintura.
	Pode confiar em mim. Sempre confiou em mim.
	Talvez no passado.  Emma segurou as mos dele, impedindo-o de desfazer o n.  Mas isso deixou de ser verdade.
	Por pensar que tra sua confiana?
	Voc traiu minha confiana.
	Eu no tra nada! S quis ser seu cavaleiro andante e salvar a cidade da minha donzela. S voc no percebeu minha inteno. Em vez disso, transformou-se no vilo da histria.  A dor emprestava um tom estridente  voz normalmente rouca e grave.  Como isso aconteceu?
	Voc sabe, Gray. Estava l o tempo todo.
Para pr fim  discusso, ele a beijou e deitou-se a seu lado no colcho. Emma tentou empurr-lo, mas era tarde demais para reagir. O crebro perdera o comando sobre o corpo, e os braos o enlaaram como se tivessem vontade prpria.
No era justo! Um beijo, e o homem destrua sua capacidade de raciocnio e seu poder de reao.
Sentira falta dele. Muita falta. Mesmo enquanto sofria a dor da traio, os sentimentos no haviam morrido.
Gray tocou o n da faixa em torno de sua cintura. Sabia que devia det-lo, antes que fosse tarde demais. E o deteria, assim que recarregasse suas baterias de afeto com aquele beijo ardente e ntimo.  claro que, at l, o dia estaria nascendo e Gray teria feito muito mais do que beij-la.
O momento de hesitao permitiu que ele abrisse o roupo para expor seu corpo. O mamiloreagiu de imediato ao toque de seus dedos.
	Somos perfeitos juntos, Emma. Seu corpo reconhece que fomos feitos um para o outro, mesmo que sua mente se recuse a admitir a verdade.
O lugar daquelas mos era sobre seu corpo. No rosto, no pescoo, nos seios, entre suas pernas, em cada pequena poro de pele, at que comeasse a gemer e suplicasse por sua posse.
Como se pudesse ler seus pensamentos, Gray deu incio a uma explorao lenta, atrevida e provocante. Uma onda de calor a envolvia reacendendo as chamas da antiga paixo.
Amava esse homem. Como pudera pensar em convencer-se do contrrio? Amara-o na infncia, quando seu maior desejo era passar o dia correndo ao sol, subindo em rvores e rindo das tolices dos garotos. Apaixonara-se por ele na adolescncia com toda a fora de seus hormnios, quando nada era mais importante que olhos azuis e ardentes, carros esportivos ainda mais quentes e vislumbrar partes inocentes do mais belo corpo masculino de Palmersville. Apaixonara-se novamente mais tarde, depois de compreender que o amor era mais do que uma conexo perfeita entre partes de um corpo. Amor era carter, inteligncia e corao.
Deixar Gray havia sido a deciso mais difcil de sua vida. No momento, no conseguia nem lembrar por que cometera tamanha idiotice. Implacvel, Sim, havia sido algo relacionado ao fato de Gray ser implacvel. No tinha importncia. A razo desaparecia diante de um desejo selvagem e primitivo, de uma compulso impossvel de ignorar, muito menos controlar.
Gray a possua. Nada mais tinha importncia. Dominada pela paixo, puxou-o sobre seu corpo tentando gui-lo para a consumao do ato, mas o homem resistia.
	No podemos  ele disse.
	O que... quer dizer com no podemos? Perdeu o juzo? No pode parar agora! Juro que serei capaz de mat-lo se tentar parar agora.
	No estou preparado. No tenho proteo.
	No tem...? Ah, no! Pelo amor de Deus, Gray!
Emma esperava que a urgncia desaparecesse depressa, ou mandaria a cautela para o inferno e cometeria uma loucura.
	H algo que quero lhe perguntar  ele disse.  Depois do que aconteceu aqui, como pode afirmar que estamos me lhor separados?
	Eu nunca neguei meu desejo por voc. Sempre o quis como homem, mas desejo  s uma palavra polida para descrever sexo.
	No aceito esse argumento. No  s sexo, Emma. Estou dizendo que no  s sexo.
	E se voc diz, est dito e pronto.
	No comece com isso outra vez. No sou esse sujeito autoritrio que anda pelo mundo dando ordens e fazendo exigncias.
	E claro que . A arrogncia faz parte de sua personalidade. Ou  do seu jeito, ou no  de jeito nenhum.
	No me venha de novo com aquela bobagem de preto e vermelho. S porque acho que nosso relacionamento envolve mais do que sexo ordinrio...
	 preto e vermelho. Dbito e crdito. Mais e menos.
	Loucura e sanidade. Sim, j entendi.
	E eu nunca disse que o sexo era ordinrio.  Preferia a honestidade. Sempre.  E se nosso relacionamento no est baseado em sexo, qual a base de tudo?
Ele abriu a boca para responder, mas as batidas na porta o interromperam.
	Salvo pelo gongo  Emma comentou rindo.  Devem ser minhas roupas.
Gray segurou-a pelo brao a fim de impedir que se levantasse.
	No v.
	So trs horas da manh. No posso ignorar aquele pobre homem l fora. No depois de todo o trabalho que ele teve para conseguir roupas e comida.
	No  s sexo. Nunca foi.
	Ah, no? Vai dizer que  amor?  Uma tristeza intensa invadiu seus olhos.  Lamento, mas no acredito nisso.
	Por que no? Por que no pode ser amor?
	Estive pensando nisso ainda hoje. Voc mesmo disse algo que me fez compreender todo o problema.
	Que maravilha! Que tipo de estupidez eu disse para convenc-la disso?
As batidas soaram mais altas e prolongadas.
	Foi a maneira como voc comparou compromisso e mentira.
	Eu nunca disse que as duas coisas eram iguais.
	Mesmo que no queira admitir, na sua cabea elas so idnticas. E esse  o problema. Um casamento envolve compromissos constantes.
	E tambm envolve amor.
	 verdade. Mas no creio que possa confiar em algum
a ponto de sentir amor por essa pessoa. 
	De que diabo est falando?
Emma sorriu com tristeza e afastou-se. Dessa vez ele nem tentou det-la.
	 simples, Gray. Na primeira vez em que discordamos sobre alguma coisa, tentei propor um compromisso e voc desconfiou do meu amor. Na sua opinio, eu estava apenas usando o sentimento como uma arma para manipul-lo.
As batidas acabariam acordando todos os hspedes daquele andar. Apressada, Emma fechou o roupo e correu at a porta.
	Desculpe a demora  disse.
O rapaz no parecia nada satisfeito. Nem seu pedido de desculpas serviu para acalm-lo.
	Foi daqui que pediram roupas?  Ele segurava um pacote em uma das mos e uma bandeja na outra.  No podia usar o roupo at que as lojas fossem abertas? Precisava arrancar meia dzia de pessoas de suas camas para resolver seu problema, qualquer que seja ele?
Emma pegou o paote e encarou o sujeito com coragem e determinao.
	Sim, senti um desejo incontrolvel de acordar meia dzia de pessoas. s vezes tenho esses impulsos, sabe?
	Tambm pediu um lanche? Normalmente a cozinha est fechada  esta hora, mas sentimos um imenso prazer em deixarmos nossas camas para preparar esta refeio.
Emma jogou o pacote no cho e pegou a bandeja.
	 bom saber que fiz a felicidade de tanta gente. Obrigada pela comida. Estou faminta.
	Tem certeza? Se estivesse com tanta fome, acho que teria aberto a porta antes. Passei mais de dez minutos batendo, sabe? No entendo como no acordei os outros hspedes do andar.
A porta do outro lado do corredor se abriu como que para contrari-lo. No. No, no, no! Isso no podia estar acontecendo. Emma tentou fechar a porta da sute antes de ser vista, mas no contava com o reflexo rpido do rapaz.
	No est esquecendo nada, moa?  ele perguntou, mantendo um p entre a porta e o batente.  No acha que mereo uma gorjeta? E  melhor ser bem generosa, porque no vou sair daqui enquanto no me sentir compensado por todo o trabalho que tive. Sugiro que comece com uma nota de cinquenta e negocie a partir da.
	Que barulho  esse?  A viva Bryant indagou irritada. Ao ver Emma vestindo o roupo e segurando a bandeja de comida, ela arregalou os olhos e levou uma das mos  boca.  Oh... Oh, meu Deus...
	No  o que est pensando!
	No,  claro que no, querida.  Um sorriso malicioso iluminou o rosto sonolento.  Ser que o prefeito Hornsby ainda est acordado? Acho que vou ligar para ele.  Com isso, a viva fechou a porta.
CAPITULO VI
Assunto: Re: Voc est morto!
Para:      "Sr. Problema" grayson_shaw@galaxies.net
De:         shadoe@comitecupido.com
CC:         "Chefe"
adelaide@comitecupido.com
Espere para matar-me depois que eu descobrir o que aconteceu. Cuidarei do assunto pessoalmente e mandarei notcias. Mas, deixe-me assegurar, no planejamos nenhum assalto envolvendo Emma. Estou certo disso. Considerando quantas pessoas esto se esforando para promover essa unio, suponho que qualquer coisa seja possvel. Posso afirmar que assaltar nossos clientes no  um procedimento padro de operao.
Shadoe, Instigador do Comit Cupido
	Ainda no entendi por que tem de me deixar em casa Emma persistiu quando entraram em Palmersville.
Gray ouviu a queixa. No que tivesse opo. Ela resmungava sem parar desde que deixaram Seattle, e ele ouvia suas queixas desde ento.
	Voc sabe porque fiz questo de lev-la para casa.  A chuva forte obrigou-o a ligar o limpador de pra-brisas.  Como esperava viajar, se no tem dinheiro, documentos ou uma passagem area? O que planejava fazer? Pedir carona?
	Tee podia ter enviado o dinheiro e a passagem.
	Teria coragem de arranc-lo de seu leito de morte para socorr-la?  Gray entrou na propriedade do homem sobre quem estavam falando.  Foi o que disse sobre seu av, no? Que ele estava morrendo?
	Talvez tenha exagerado um pouco.
Ele estacionou na frente da porta principal da residncia dos Palmer, uma monstruosidade de cimento e tijolos importados. Emma saltou do carro assim que o motor foi desligado e correu para a varanda sob a chuva forte. Gray a seguiu sem pressa e alcanou-a no exato instante que ela abria a porta.
Ele a deteve antes que pudesse escapar.
	No esqueceu ningum?
Emma voltou  varanda e, de queixo erguido, fechou a porta da casa, indicando que no o deixaria entrar. Por que chegara a acreditar que algo poderia ser fcil com ela?
Pois bem, se era assim que ela queria, assim seria. Gray cruzou os braos sobre o peito e sustentou o olhar de desafio, deixando claro que no pretendia ir embora.
	Obrigada por ter me trazido. Foi muita gentileza sua. Tambm sou grata por ter me ajudado em Seattle e por ter me alimentado. Oh, e pelas roupas.
	No foi nada. Agora que j expressou sua gratido, talvez eu deva lembrar que o mais correto  convidar as pessoas a entrar em sua casa, no juntar-se a elas do lado de fora. Por que insiste em fazer tudo ao contrrio?
	Porque prefiro assim. E voc? Por que quer entrar?
	Para ver Tee,  claro. Por que mais? Vai me deixar entrar, ou prefere ficar aqui fora discutindo comigo at estar ensopada?  Sem esperar por uma resposta, ele tirou o casaco e colocou-o sobre seus ombros.
O casaco a cobria at a metade das canelas, e Emma encarou-o irritada.
	Por que quer ver Tee?
	No  natural que eu queira v-lo depois do que disse sobre sua sade?
	Confesso que tinha esperanas de que no manifestas se essa inteno.
	Tee  meu amigo, apesar de nossas diferenas com relao  fbrica de calados. No vou ignorar essa amizade s para preservar seu conforto.
	Nem eu esperava isso.
	Ento, por que no me contou antes que ele estava doente? E por que no disse que ele perguntava por mim? Devia ter entrado em contato comigo h semanas, Emma.
A culpa provocou um rubor que tingiu seu rosto.
	Como soube que ele estava perguntando por voc?
	Ele telefonou para mim e contou,  claro. H mais alguma coisa que queira me dizer? Mais algum segredo que deva revelar?
	No muito.  Era mentira, mas pelo menos ela mentia com compostura.  Em pouco tempo ele estar em p castigando a moblia com sua bengala. S preciso dar uma olhada rpida em seu protocolo mdico para ter certeza...
Gray aproximou-se, segurou seu queixo e obrigou-a a encar-lo.
	Quero a verdade, lmma. Qual  a gravidade do quadro?
Ela suspirou resignada.
	Voc sabe. Ele est indo to bem quanto  possvel para um homem que se recusa a seguir as orientaes mdicas.
	Seja mais especfica.
Era hora de revelar a verdade.
	Ele sofreu um ataque algumas semanas antes do casamento de Tess, mas os exames foram inconclusivos. Em todas as outras vezes em que esteve doente, meu av se recuperou bem e depressa.
	Mas no desta vez.
Emma balanou a cabea.
	Ele se recusa a sair da cama h duas semanas.
	O qu? Tee est na cama h duas semanas? Por vontade prpria? Voc no havia dito nada disso!
	No? Tambm no disse que o doutor Crosby desistiu do caso? Ou que Tee se recusa a receber qualquer pessoa que no seja seu advogado?
	No, voc no havia mencionado esses pequenos detalhes. Mais alguma coisa que eu deva saber?
	No que eu me lembre. Mas continue atento. Quem pode saber o que vou lembrar nas prximas duas horas?
	Fale-me sobre o advogado.
	Tem sido horrvel, Gray. Aquele tubaro velho vem visitar meu av todos os dias. Depois de uma conversa mais longa, Tee sugeriu que eu entrasse em contato com voc.
	Sugeriu?
	Tudo bem, ordenou. Sei que devia ter telefonado para voc, e teria, no fosse...
	J sei. No telefonou por causa do nosso rompimento.
	Sim. Mas agora voc est aqui. E j que est aqui, sugiro que trace um plano para resolver essa situao.
Provocara esse tipo de circunstncia. Se Emma jogava o problema em suas mos, a culpa era toda dele.
	J tenho um plano  ele revelou.
	Uau! Est se superando!
	Tenho o plano pronto desde hoje de manh. S preciso fazer o que Tee pediu quando telefonou para mim.
	Ah, sim, ele telefonou... Quando? Por qu?
	Podemos conversar l dentro? Conhecendo seu av, ele j deve ter sido informado de que estou aqui, e sugiro que v v-lo antes que ele comece a atacar as paredes com aquela bengala.  Gray abriu a porta da casa. 
Emma entrou e convidou-o a fazer o mesmo. Solcito, ele a livrou do peso do casaco e pendurou-o num gancho do hall, ao lado da porta. O perfume de Emma invadiu seus sentidos, despertando um sentimento conhecido e muito antigo, mas ele se conteve lanando mos de anos de prtica.
	Pronta para subir?
	No sem antes saber mais sobre o telefonema de Tee.
	Ele ligou para o hotel pouco antes de partirmos para o aeroporto. Voc estava no banho.
	Disse a ele que eu estava com voc?
	No foi preciso. A viva Bryant cuidou disso com eficincia espantosa.
	Oh, no! Ele ficou muito zangado?
	Acho que sim. Seu av disse que eu devia trazer meu lamentvel traseiro para c o mais depressa possvel. Palavras dele.
	Cus...
	Exatamente. Agora que j conhece a situao em que estamos metidos, h mais alguma coisa que eu deva saber antes de subirmos?
	Bem... talvez deva prevenir-se para o caso de Tee pedir um favor.
	Tudo bem. Ele ter o que quiser.
	No quer nem saber o que ele pretende pedir?
	No.
E no precisava saber. Tinha uma dvida de gratido com aquele homem muito maior do que jamais poderia pagar, apesar da questo envolvendo a Palmer Calados. Durante um tempo em que sua vida domstica fora um inferno, Tee o recebera em sua casa e demonstrara atravs de exemplos como devia se comportar um verdadeiro pai. Todas as lies de vida que recebera haviam sido cortesia de Tee. Mesmo assim, no gostava da atmosfera misteriosa em torno do favor que ele pretendia pedir, como tambm no gostava das interminveis e persistentes conversas com o advogado. Tho-mas T. Palmer desprezava advogados tanto quanto odiava pedir ajuda.
Gray olhou para a escada.
	Vamos enfrentar tudo isso de uma vez  falou.
	Espere!
	O que  agora?
	Ele sabe sobre ns? Sobre antes... antes da viva Bryant. Meu av sabe que estivemos envolvidos? Disse alguma coisa a ele?
	Tee e eu ainda somos amigos, no?.
	E isso significa...
	Significa que, caso tivesse certeza de nosso envolvimento, dos aspectos mais ntimos de nossa ligao, seu av no teria me chamado para vir at aqui. Ele teria me matado e jogado os pedaos do meu corpo para os abutres.
	Duvido! Meu av no teria foras para enfrent-lo.
	No se eu quisesse o confronto.
	Est dizendo que o evitaria?
Ele tocou seu rosto e sorriu. Era difcil resistir ao desejo de tom-la nos braos, mas precisava conter-se.
	Estou dizendo que mereceria toda e qualquer punio que ele considerasse justa.
	Por ter dormido comigo?
	Por no termos nos casado depois disso. Por ter deixado voc escapar.
	Est falando como se houvesse tirado vantagem de mim.
	E tirei.
	No seja ridculo! Se me lembro bem, ns dois tiramos proveito da situao.
	Tee no teria concordado com esse ponto de vista.
	Alm do mais  ela continuou como se no houvesse sido interrompida , voc no teria conseguido me impedir de partir.
Gray no respondeu. Nada do que dissesse quela altura faria diferena.
	Seu av no  o mais paciente dos homens.  melhor subirmos antes que ele mande uma equipe de busca.
	Ouviu o que eu disse, Gray? No poderia ter me impedido de partir. A escolha foi minha.
	 verdade. Voc escolheu partir, e eu escolhi deix-la ir. Caso contrrio... Bem, existem muitas maneiras de prender uma pessoa. Sugiro que deixemos essa discusso para outra hora.
Determinado, Gray subiu a escada sem esperar por uma resposta. Depois de um instante de hesitao, Emma o seguiu com passos apressados.
	Saiba que a discusso no acaba aqui  avisou.
	Eu j imaginava.  Na porta do quarto de Tee, ele parou e bateu duas vezes.  Vou lhe dar um conselho, Emma. No envolva seu av nisso.
	Eu jamais faria tal coisa com ele. E nem com voc, embora no acredite em mim.
Era evidente que seu comentrio a magoara. Antes que Gray pudesse explicar-se ou desculpar-se, uma voz forte ecoou do outro lado da porta.
	Que diabos vocs dois esto esperando? Venham at aqui agora!
Gray levantou uma sobrancelha. Interessante. Aquela no era a voz de um homem em seu leito de morte. Curioso, abriu a porta e entrou na sute espaosa. As cortinas estava semicerradas, permitindo que uma nica fresta de luz rompesse a escurido opressora. Havia uma mulher ao lado da janela, e Tee ocupava o centro da cama de casal. Reclinado sobre alguns travesseiros, ele olhava para a porta com uma mistura de impacincia e ansiedade. Um leve aroma de tabaco pairava no ar.
Interessante no era a melhor palavra para descrever a situao. Suspeita era mais apropriada.
	O que est acontecendo aqui?  perguntou Gray.
	Minha neta no disse? Estou morrendo.
	No fale assim...  Emma comeou.
Um gesto impaciente silenciou-a.
	Encare a realidade, menina. Sou um moribundo. Por que acha que recebo as visitas de meu advogado todos os dias? E por que pedi a presena de Shaw?
	Pensei que fosse para cobrar uma dvida  Gray sugeriu.
	Exatamente. Uma dvida que pretendo cobrar antes de deixar este mundo.
	O que espera de mim?
	No muito. Apenas um pedido de casamento.
	Vov!
	Relaxe, docinho. Eu cuido disso  Gray anunciou sorrindo.  Muito bem, Tee. Se  s isso... Quer se casar comigo?
	Eu no, seu pateta!  Tee bateu com a bengala contra o criado-mudo.  No tem respeito pela morte?
	Acalme-se, sr. Palmer.  A mulher que at ento se mantivera ao lado da janela aproximou-se da cama.  No devemos nos excitar.
Gray conseguiu conter o riso.
	E voc ...
	Pode me chamar de enfermeira Jones.  Ela tomou o pulso do homem sobre a cama.  Estou aqui para cuidar do sr. Palmer.
	 claro. Por que no pensei nisso antes? Devia ter notado o uniforme.
	Posso providenciar um programa, se quiser. Assim poder manter-se informado sobre todas as produes previstas para o nosso modesto grupo.
	O que est acontecendo aqui?  Emma perguntou ao av.
	 simples. Quero que Gray a pea em casamento. Meu ltimo desejo  v-los casados. Pronto. Agora, tratem de cuidar da papelada e resolvam esse assunto de uma vez por todas.
Gray tocou o queixo de Emma para faz-la fechar a boca.
	Parabns, Tee. Voc conseguiu faz-la calar.
	No tem graa nenhuma!
	Parece que o efeito no foi prolongado  lamentou o av.
	 preciso prtica, mas pode melhorar  Gray piscou para o amigo e mentor.  O que est acontecendo realmente, Tee? O que significa tudo isso?
	Significa que um velho est sentindo a morte prxima e quer ver sua pobre neta casada e protegida antes de partir deste mundo.
	Esquea. No vou me casar com Gray, vov.
	Engraado... No me lembro de ter feito o pedido  ele respondeu.
	 verdade. Hoje no.
Tee desferiu mais um golpe violento com a bengala contra o criado-mudo.
	Calem a boca!  gritou.  Estou falando srio! Quero vocs dois casados antes do meu enterro.
Emma aproximou-se da cama e sentou-se na beirada do colcho.
	Voc no vai morrer  disse, tomando a mo dele com carinho.  Quero que pare de falar nisso.
	Todo mundo morre, meu bem. No vou viver para sempre. E, antes de deix-la, quero ter certeza de que est feliz e amparada.
	Por que acha que preciso de Gray para estar feliz e amparada? Por que no posso conseguir a mesma coisa sozinha?
	Voc conhece a resposta. Andou brincando de casinha com esse sujeito.  Ele soltou a mo da neta e tocou seu rosto.  Devia ao menos corar, meu bem. Foi para isso que a eduquei.
Emma comeou a falar de maneira descontrolada, como costumava fazer na infncia, quando era pega fazendo algo errado.
	Foi tudo um mal-entendido. O hotel cancelou minha reserva, e por isso tive de ficar com Gray em Seattle.
	No estou me referindo ao que a viva Bryant viu ontem  noite. Estou falando sobre os meses que passou trabalhando para Gray. Estava vivendo com ele, no?
Foi impossvel disfarar o choque.
	Como soube disso?
	Posso ser velho, mas no sou estpido. Esse sujeito tirou proveito de vocj e agora vai ter de reparar o mal que causou.
	No  necessrio. Ns dois tiramos proveito do que aconteceu.
	 necessrio, mesmo que ambos tenham sado satisfeitos dessa histria. Ele j roubou minha empresa. No vai roubar sua reputao.
	Aprecio sua preocupao, mas h muito tempo as pessoas deixaram de se casar pensando apenas em suas reputaes.
	Em Palmersville a reputao de uma moa ainda  um bem precioso. E o casamento  a nica soluo para algum que teve esse bem ameaado. Especialmente se esse algum for minha neta.  Tee olhou para Gray.  Vai salvar a reputao dessa jovem, ou tambm vai tirar isso de mim?
	Eu ficaria muito feliz com esse casamento, mas Emma no me quer.
	Essa  a primeira deciso sensata que minha neta j tomou.
	Ento, por que est insistindo no contrrio?  ela perguntou irritada.
	Porque as pessoas esto comentando. Pior, esto apostando! No posso permitir que voc se transforme em alvo de comentrios maldosos.
- Ah, ento se incomoda com as fofocas, mas acha normal que eu me case com um homem em quem no confio?
	O qu? Gray  totalmente confivel!
	Mesmo depois do que fez com voc?
	Voc no tem nada a ver com isso.
	Tenho. Fui eu quem deu a ele a informao necessria para que ele tomasse posse da Palmer Calados. Gray  o homem mais implacvel e oportunista que j conheci.
	S quando est tratando de negcios.
Emma encarou-o com ar de acusao. Ele era implacvel em todos os sentidos, inclusive na vida pessoal, ou no estaria ali parado, esperando tirar proveito da situao.
Srio, Gray pensava em todas as acusaes que ouvira nos dois dias anteriores. Talvez fosse mesmo do tipo preto e vermelho com relao a algumas questes. E tinha uma tendncia para perseguir seus objetivos com determinao. Mas... que outra maneira existia?
H quarenta e oito horas, teria respondido sem hesitar: nenhuma. Agora, diante do olhar de censura de Emma, tinha a sensao de que precisava encontrar alguma. E depressa.
	Por favor, meu bem  Tee insistiu.  Faa isso por mim.
Uma estranha emoo cintilou nos olhos dela, e Gray teve vontade de encolher-se.
	Tudo bem, vov  Emma suspirou resignada.  Se  isso que quer, eu concordo. Vou me casar com Gray. Sem dizer mais nada, ela se levantou e saiu do quarto.
Tee praguejou em voz baixa.
	Droga! No fique a parado, rapaz! V atrs dela!
Por alguma razo, Gray no conseguia sair do lugar. Por que ela o fitara daquela maneira, como se houvesse cometido um crime contra a natureza? E por que se sentia em estado de alerta, quando devia estar satisfeito?
	O que mais quer dela? Emma j concordou com seu pedido. Vai se casar comigo, no?
	E voc acreditou? Ela disse sim, mas o brilho em seus olhos anunciava que essa era a ltima coisa que ela faria na vida. V atrs dela e convena-a a cumprir a promessa.
	E como sugere que eu faa tal coisa?
	Como posso saber? Voc  o implacvel aqui. Ameace. Envolva. Caia de joelhos e suplique. No me importo com os mtodos. Faa o que tem de ser feito.
	Talvez deva dizer a ela o que sente  sugeriu a enfermeira Jones.  Presumo que sinta alguma coisa pela jovem. Ou  s mais uma fofoca sem fundamento?
Gray caminhou para a porta.
	Acho que  hora de cuidar desse assunto sem ajuda. Mesmo assim, obrigado.
	Isso mesmo! Confie em voc  Tee aplaudiu entusiasmado.  Vai dar certo. Pense em como se saiu bem at agora.
Gray fechou a porta e ficou parado no corredor por um instante. Depois voltou a abri-la.
	E melhor tirar esse cigarro de baixo das cobertas antes de pr fogo no quarto. Ele olhou para a enfermeira.  Belo disfarce, Adelaide. Emma nem percebeu.
Ela ajeitou a peruca grisalha.
	Obrigada.
	Mande lembranas a Tom, Dick e Harry. Oh, sim, e diga a Tom que ainda no desisti de mat-lo.
Assim que a porta se fechou, Tee tirou o cigarro de baixo da coberta e olhou para Adelaide.
	Tom, Dick e Harry?
	Meus filhos. Gray e Tom estudaram juntos na universidade.
	Droga! Ento ele sabe que isso tudo  um plano!
	Imagino que Gray tenha percebido tudo no momento em que entrou no quarto. Emma tambm teria descoberto a verdade, se houvssemos passado mais tempo juntas no casamento. Felizmente para ns, ela estava mais preocupada com Gray do que com a me do noivo.
	 incrvel, mas estou me sentindo culpado. Eu, Thomas T. Palmer, o homem capaz de tudo para alcanar seus objetivos, est sentindo o gosto amargo da culpa! Quem poderia imaginar?
	A literatura est repleta de relatos sobre recuperaes milagrosas.
	No posso me deixar dominar por esse sentimento intil  ele decidiu, saindo da cama para ir buscar o isqueiro de ouro na gaveta da cmoda.  Se no for firme, Emma escapar como um peixe do anzol.
	Nesse caso, sugiro que obrigue sua neta a se casar com o homem pelo qual ela  apaixonada h mais de dez anos. Assim no ter de sentir culpa. Por que sentiria, se s quer que ela seja feliz?
Tee riu.
	Essas so as caractersticas que mais amo em voc, Adelaide.  uma mulher de viso, sabedoria e determinao inescrupulosa!
	Formamos um belo par, no acha?
	Pode apostar nisso! Quanto ao sentimento de culpa, voc tem razo. No sei por que perdi um segundo do meu precioso tempo com essa tolice.
	No se preocupe. Estou aqui para impedir que isso se repita. Eu nunca perco tempo com tolices.

CAPITULO VII
Assunto: Basta!
Para:       Gray Shaw grayson_shaw@galaxies.net
De:	Chefe
adelaide@comitecupido.com
CC:         "Thomas T. Palmer"
palmer@worldstar.com
"Sr. Nem-To-Extraordinrio"
shadoe @ comitecupido.com
"Tess Lonigan" gan01 @altruistics.net
"Prefeito Horngby" grandequeijo@worldstar.com

J suportei demais. A partir de hoje, estou assumindo o caso Grayson Shaw e Emma Palmer. No haver mais interferncia de nenhuma parte, ou esse breve romance ter um fim rpido. Quaisquer perguntas devero ser dirigidas a mim e a mais ningum.
Adelaide, Presidente do Comit Cupido.
P.S.  melhor que no haja nenhuma pergunta.
Gray alcanou-a no topo da escada. Aliviado, notou que a dor que vira em seus olhos momentos antes de sua proposta ser aceita havia desaparecido, dando lugar a uma espcie de resignao.
	Precisamos conversar  disse.
	 verdade. Temos um assunto srio para discutir.
Emma virou-se e desceu a escada para ir  biblioteca. Gray a seguiu em silncio, tentando no olhar muito para certa parte de sua anatomia realada pela saia vermelha, cortesia do hotel em Seattle. Assim que entraram no aposento amplo e imponente, ela fechou a porta e se virou com as mos na cintura.
	Muito bem, aceitei seu pedido de casamento. E agora? O que vai fazer?
	Vou me casar com voc,  claro.
	Ah, no vai! Concordei com seu pedido para satisfazer meu av, mas o casamento no vai acontecer.
Emma no sabia como estava enganada. Se o considerava implacvel antes desse confronto, ela no tinha ideia do que a esperava.
	Muito bem. Por que no voltamos ao quarto e explicamos a situao a Tee?
	Isso no ser necessrio.
	Ah, no?
	No. Voc nos meteu nessa encrenca. Agora trate de usar seu crebro super-analtico para tirar-nos dela!
	E claro. Sem problemas.
O tom de voz alertou-a para sua verdadeira inteno.
	No vai fazer nada, no ?
	No.
	Grayson Shaw, voc  insuportvel! Por que se casaria comigo, se no temos nada em comum?
	Porque  o que ns dois queremos. No fundo, voc sabe disso. S no est preparada para admitir a verdade.
	Est enganado.
	Estou mesmo?  Ele se aproximou e deixou os sentimentos transbordarem do olhar e da voz.
	Pare com isso.
	Qual  o problema?
	No vai usar tudo isso...  ela usou os braos para indicar toda a extenso do corpo msculo, da cabea at os ps  para influenciar-me. Mantenha distncia at resolvermos essa questo.
Gray conteve o riso. Mesmo que insistisse em usar o caminho mais longo, sua futura esposa acabaria tendo de admitir que haviam nascido um para o outro. Ele recuou um passo.
	Essa distncia  suficiente?
	No. Mas acho que vou ter de contentar-me com ela. Onde estvamos?
	Mantendo distncia.
	Antes disso.
	Falvamos sobre sermos perfeitos um para o outro.
	Exatamente!  bom saber que tambm percebeu que no temos nada em comum. Nunca concordamos sobre coisa nenhuma. Acha que o tempo vai mudar tudo isso? Em um ms estaremos apelando para a agresso fsica. Um ms?
Cus, onde estou com a cabea? Um dia!
	Bobagem. Estivemos juntos por seis meses e foi marailhoso.
	At voc roubar a empresa de Tee.
Ele suspirou.
	Sim, at ento.
	Ser que no ejitende?  isso que estou dizendo. Tudo ia bem at voc se transformar no Sr. Implacvel. Por que acha que no vai acontecer outra vez?
	Garanto que vai acontecer. E vai acontecer agora. E voc vai aprender a lidar com isso durante o nosso casamento da mesma forma que lida com isso agora. No  nenhuma garotinha indefesa, Emma. Longe disso. Sempre foi perfeitamente capaz de enfrentar-me.
	Por que tenho a sensao de que no vou gostar do que vou ouvir?
	 claro que vai gostar. Negociar  divertido.
	Negociar. Em vez de comprometer-se, quer negociar. E claro. Voc nunca se compromete. Comprometer-se  o mesmo que mentir, enganar.
	Essa  sua interpretao. Pessoalmente, nunca pensei muito nesse assunto. Quer ser informada quando eu chegar a uma concluso?  Ele no esperou por uma resposta.  Por outro lado, considero a negociao uma prtica vital para os negcios, uma tcnica to distante da mentira e da trapaa quanto  possvel ser.
	Certo. E o que estamos negociando?
	Nunca fiz segredo da minha inteno de casar com voc.
	Entendo. Fao parte de sua lista de prioridades, no ? Roubar a empresa de Tee. Arruinar o casamento de Tess. Destruir a reputao de Emma. Casar com a pobre mulher desgraada.
Ele riu.
	Que bela lista! Para sua informao, casar com a pobre mulher desgraada est no topo da relao.
	Que sorte a minha.
	Pode apostar nisso. Quer abrir as negociaes, ou devo comear?
	Est brincando!
	No.  Casar com Emma era um assunto srio.  Voc me acusou de pensar em tudo em termos extremos.  Preto ou vermelho. Muito bem, o que devo fazer para convenc-la a me aceitar como marido? Qual  sua prioridade?
	No acredito que esteja me fazendo essa pergunta.
	 voc quem vive me acusando de ser implacvel. Por que a surpresa, se estou apenas atendendo s expectativas gerais?
	No pode negociar um casamento!
	No? Espere s para ver.
	Esquea, Gray. No estou  venda.
	Nem eu estou comprando.  Anos de prtica o ajudavam a manter o foco no objetivo final. No podia pensar em tudo que perderia, caso fracassasse na negociao.  Mas deve haver algo que queira, algo que s eu posso lhe oferecer. Algo capaz de convenc-la de que nosso casamento tem grandes chances de dar certo.
	Algo que s voc pode me dar?
No queria alimentar falsas esperanas. Era cedo demais para pensar que encontrara um ponto fraco.
	O que voc quiser.
	Est falando srio? Far tudo que eu quiser?
	Tudo que estiver ao meu alcance.  Por favor, que esteja ao meu alcance!
	Est falando srio?
	Completamente.
	Quer tanto assim se casar comigo?
	Mais do que pode imaginar.
Ela o encarou por um segundo. Gray sustentou o olhar profundo.
	Muito bem. H uma coisa... no, duas coisas que quero de voc.
O acordo havia sido fcil demais. Ou o pedido seria impossvel de atender, ou ela tinha um plano para romper a relao, e formular os pedidos era s uma forma de ganhar tempo.
	Se eu lhe der essas duas coisas, vai se casar comigo?
	Sim.
	Pea o que quiser. Mas tem de ser algo que eu possa fazer.
	Oh, essas duas coisas esto ao seu alcance.
Sim, mas no sabia se gostaria de fazer essas duas coisas. A mensagem era ciam. No tinha importncia. Faria qualquer coisa por Emma, mesmo que tivesse de morrer por isso.
	Pode pedir.
	O primeiro pedido  simples. Quero que Tee volte a ser o presidente da Palmer Calados.
Maldio!
	Vai se arrepender por ter feito esse pedido.
	No vou. Meu av est naquela cama porque voc roubou a companhia que o pai dele fundou, um negcio que criou esta cidade. Pior, ele perdeu o respeito e a admirao das pessoas de Palmersville. Para um homem orgulhoso como Tee, esse  um destino pior do que a morte. No me espanta que ele tenha desistido da vida.
	Ele est fingindo.
	O qu? Como se atreve a insinuar tal coisa? Aquele pobre homem est morrendo, e a culpa  toda sua! E quero que repare o mal que causou devolvendo a ele a presidncia da Palmer Calados.
	Mesmo que isso signifique a falncia da companhia?
Mesmo que dois teros da populao de Palmersville fique sem emprego por conta desse fracasso empresarial?
	Isso no vai acontecer.
Era intil explicar que o retorno de Tee  presidncia garantia a falncia da companhia. Fatos e nmeros no seriam preo para aquele tipo de emoo cega.
Disse que ia pedir duas coisas. Qual  a segunda?
Emma encarou-o em silncio por um instante. Depois sorriu com tristeza.
	Eu me casarei com voc se puder descobrir qual  o meu maior desejo e atend-lo.
	O que foi que disse?
	Voc ouviu bem.
Sim, ouvira... mas no entendera.
	Certo. O que voc quer?
	No vou dizer. Voc tem de adivinhar. Se puder me dar o que realmente quero, ento nos casaremos.
	Quer que eu adivinhe seu maior desejo?
	Na verdade, seria bom se pudesse entender meu desejo, em vez de adivinh-lo.
Droga! Tinha certeza de que poderia cumprir tarefas, mesmo as mais difceis. Mas um desejo secreto?
	Como posso saber o que voc quer? Quem a conhece sabe que seus ideais mudam constantemente.
	No esse ideal. Direi ao reverendo Franklin qual  meu segundo desejo. Assim poder ter certeza de que no vou mudar de ideia a fim de escapar do nosso acordo.
	E quando devo atender a esse desejo secreto? Durante a cerimnia?
	Antes dela. Assim no perderemos tempo preparando um casamento que no acontecer.
	Est duvidando da minha capacidade de adivinhar seu maior desejo? E de atend-lo?
	Sim, Gray. Estou duvidando disso.
S havia uma forma de convenc-la. Por isso ele a tomou nos braos para beij-la. Emma no resistiu. Era justamente esse abandono, essa imprevisibilidade que tanto o encantava. Emma no fazia planos. Para ela, a vida simplesmente acontecia. Enquanto seu mundo era preto e vermelho, ela era como uma borboleta carregando o arco-ris nas asas.
Com um nico beijo, Gray tentou transmitir toda a intensidade de seus sentimentos por ela. Haviam nascido um para o outro, e nada, nem mesmo um desejo secreto, poderia separ-los.
Relutante, ele se afastou.
	Nada que se refira ao nosso casamento ser perda de tempo  disse.  Isso  real, Emma. Ns vamos nos casar, e quero que viva cada minuto dessa experincia. Quando chegarmos na igreja, seu segundo pedido ser atendido. Prometo.
	Como pode ter tanta certeza?
	Porque no existe em todo o mundo um homem que saiba mais sobre seus desejos do que eu.
Gray abriu a porta do quarto de Tee.
	Muito bem, que diabo ela quer?
	Oh,  voc.  Tee tirou o cigarro do esconderijo sob a coberta.  Pensei que fosse minha neta. Devia ter adivinhado que era voc. Emma tem educao suficiente para bater antes de entrar.
	O que ela quer?  Gray repetiu irritado.
	Quem? Emma?
	No, seu lagarto velho! A enfermeira Jones!
	Como posso saber? Ela nem  uma enfermeira de verdade! Como posso saber quais so suas predilees? Se est to interessado, por que no pergunta a ela? Vai encontr-la na cozinha, fazendo um lanche.
	Se no estivesse nessa cama, eu o esmurraria at cansar minhas mos.
	Bobagem! Por que gastar sua energia com um velho bobo e brincalho? Eu estava apenas brincando.  Tee riu e balanou a cabea, censurando a impacincia da juventude.  Qual  o problema, afinal?
	Emma. Ela sempre foi meu problema.
	E verdade, ela exerce esse mesmo efeito sobre vrias pessoas. E encantadora de um jeito especial, diferente, s vezes incmodo.
Gray aproximou-se da janela e olhou para os canteiros floridos no jardim bem cuidado da manso.
	Ela aceitou meu pedido de casamento  anunciou.
	Voc conseguiu? De verdade?  Tee pulou da cama e danou com a ajuda da bengala. Um crculo de fumaa pairava sobre sua cabea como um halo.  Sabia que aquela cena sobre o leito de morte a convenceria.
- No fique to animado. Emma imps condies.
	Ah... Que condies?
	A primeira  que voc reassuma a presidncia da Palmer Calados.
Tee sorriu com ternura.
	Ela no  um encanto?! Minha adorada neta defendendo o vov do horrvel pirata corporativista.
	Acha mesmo que isso  encantador? Eu diria que  perigoso.
	Relaxe, Gray. No quero o emprego de volta.
	Vai ter de aceit-lo mesmo assim. Essa  uma das condies de Emma, e estou disposto a tudo para t-la como esposa. E que histria  essa sobre no,querer a presidncia de volta? Depois de tudo que fez para no deix-la...
	Aquilo foi s uma reao provocada pelo orgulho.
	Podia ser pior. Conheo homens que reagem com outras pores de sua anatomia e personalidade.
	Est falando por experincia prpria?
	No queira saber que parte de meu corpo  responsvel por minhas reaes. Temos algo mais importante para esclarecer. Emma acredita que voc est neste quarto, a um passo da morte, porque eu tirei a Palmer Calados de voc.
	Tenho de confessar que fiquei um pouco aborrecido com esse processo envolvendo a fbrica. Mas, depois de ter passado algum tempo na cama, pensei muito no assunto e conclu que estava cometendo um grave erro.
	 bom saber que finalmente ouviu a voz da razo.
	Se demorei tanto para ouvi-la, voc  o maior culpado.
	Voc  o crebro por aqui. Devia ter me explicado tudo. Assim, teria evitado uma srie de dificuldades.
	Como poderia ter explicado alguma coisa, se voc se recusava a ouvir-me?
	Tem razo. No incio fiquei ressentido, senti-me humilhado, derrotado... Depois me dei conta de que estava livre.  No tinha mais de suportar a presso de ser o responsvel pelo destino da Palmer Calados. E tudo graas a voc.
	No foi nada.
A ironia de Gray provocou um sorriso de compaixo.
	Rapaz, quero que saiba que reconheo e aprecio seu esforo. A fbrica est em queda h uma dcada, e nos ltimos anos o declive transformou-se em um precipcio. No fosse por sua interferncia, j teramos falido.
	Tente dizer isso a Emma.
	Eu no! Estou numa posio muito cmoda da qual no pretendo sair. Se tudo der errado, poderei apontar para voc e dizer que a culpa  sua. E se tudo der certo, direi que teve sorte. Como ainda possuo as da companhia, irei at o banco rindo e danando. Por que poria em risco a segurana da minha velhice reassumindo a presidncia?
	Porque s assim Emma aceitar meu pedido de casamento. Por isso.
	Ah...
	Escute, voc s ter de ir ao escritrio todos os dias durante alguns meses. Depois poder dizer a ela que no suporta mais o stress e que decidiu aposentar-se.
	Ela no vai acreditar nisso.
	Convena-a.
	Tudo bem, vou convenc-la. Afinal, j a convenci de que estava morrendo, no?
	 verdade. E assim que estiver casado, vou surr-lo por isso tambm. Emma tem estado muito preocupada com sua sade.
	Se servir para uni-los definitivamente, toda a preocupao ter valido a pena. Nada mais foi capaz de convenc-la... No imagina como essa menina  teimosa.
	Realmente? De onde ela ter herdado essa caracterstica?
	Sim, de onde?
	Tee, h algo que quero saber. Se no est aqui lamentando a perda da Palmer Calados, por que se trancou neste quarto?
	 simples. Estou seguindo ordens.
	Ordens? De quem?
	De Adelaide,  claro.
Por que no pensara nisso antes? Aparentemente, no havia sido o nico a procurar o comit.
	Deixe-me adivinhar. Foi pedir ajuda ao Comit Cupido?
	Tambm os conhece?
	Digamos que sim.
	No me diga que...  Tee deixou escapar uma gargalhada.  Tambm foi procur-los? Adelaide comentou que voc  amigo de um dos filhos dela, mas no disse nada sobre ser cliente do comit. Deus nos livre das mulheres diablicas! Elas ainda sero nossa runa!
	Se disser uma palavra sobre tudo isso a Emma, ento estar realmente a um passo da morte. Gray estava curioso.  Como foi sua entrevista com eles?
	Na verdade, eles me pediram ajuda. Precisavam de algum prximo, acima de qualquer suspeita e capaz de tudo. E desnecessrio dizer que me encaixei no perfil com perfeio espantosa.
	Quem pediu sua ajuda?
	A prpria Adelaide.
	E o que ela queria que fizesse?
	Ainda no percebeu? Eu tinha de morrer. Ou chegar bem perto disso.
	Por qu?  Como se j no soubesse.
	Porque um pedido feito no leito de morte  sempre atendido. Eles precisavam de um bom argumento para convencer Emma a se casar com voc.
	Entendo. Estava tudo acertado desde o incio, no ?
	Pode apostar nisso. Os moradores desta cidade pretendem ver sua filha predileta casada com seu filho preferido.
	E por isso recorreram a pequenos truques e expedientes. Desonestidade, Tee.
	Chame como quiser. Nesse caso, os fins justificam os meios. E quanto  segunda condio? Ainda no disse qual era.
	No sei. Ela tambm no disse.
	Como assim? Emma no disse qual  seu segundo pedido?
	Exatamente. Ela quer algo de mim, mas espera que eu adivinhe seu desejo e possa atend-lo.
	Adivinhar? Voc?
	Vejo que entendeu a essncia do problema. No sou bom nisso, Tee. Lido com fatos, .nmeros, anlises lgicas... Adivinhar est muito alm da minha capacidade.
	Tenha calma, rapaz. Podemos resolver esse pequeno problema. J disse a ela que a ama?
Gray encarou-o com ar chocado.
	E claro que sim! Quero dizer... Acho que sim.
	No disse, no ?
	Eu tentei. Emma disse que o amor era uma mentira, ou coisa parecida. Odeio ter de lhe dizer isso, mas sua neta nem sempre faz sentido. Ela fala demais, mas suas ideias carecem de lgica.
	Ela herdou essa caracterstica da av. Agora escute. Isso vai ser muito fcil. Tudo que precisa fazer  dizer que a ama no momento mais apropriado, e em menos de uma semana estaro casados dividindo a mesma cama. Garanto.
	E se no for isso?
	Humm... Nesse caso, vai ter de fazer mgica para adivinhar o que ela quer. Caso contrrio, acabar perdendo Emma.
CAPITULO VIII

Assunto: Andando! 
Para:       "Chefe"
adelaide@comitecupido.com
"Futuro neto"
grayson_shaw @ galaxies.net
"Instigador Chefe"
shadoe@comitecupido.com
"Tess Lonigan" ganO1 @altruistics.net
"Hornsby"
grandequeijo@worldstar.com
De:	"Thomas T. Palmer"
teepalmer @ worldstar.com
Muito bem, gente. Eu fiz minha parte. Consegui o que nenhum de vocs, cupidos incompetentes, foi capaz de fazer. Todos devem a mim o fato de Emma e Grayson estarem noivos.  hora de colocarem seus traseiros em movimento para que possamos amarr-los de uma vez por todas! Quero ter bisnetos e os quero nove meses depois da data do casamento e nem um dia mais tarde. (Ou antes, a propsito.) Agora, andando!
T.
	No sei por que a pressa  Emma reclamou.  Estamos noivos h quanto tempo? Uma hora?
	Duas.
	Certo. Duas.  Gray abriu a porta do salo nupcial e ela entrou.  Temos muito tempo para escolher um vestido e tudo que for necessrio para a cerimnia.
	Tempo  algo que no temos. No quero correr o risco de voc mudar de ideia. Vamos nos casar dentro de duas semanas e est encerrado.
	Duas semanas? Impossvel!
	Eu sei que  difcil, mas no  impossvel.
	No podemos organizar um casamento em duas semanas.
	Quer apostar?
	No!  Flores, um vestido, convites... Tess e Raine! Elas chegariam a tempo?  Prefiro um noivado mais longo. Que tal seis meses?
	Duas semanas.  Ele olhou em volta.  Onde esto todos os funcionrios desta loja?
	No viu a placa na vitrine? Mary Lou teve de ausentar-se. Quanto ao nosso noivado, estava falando srio quando disse que prefiro ir com calma. Sabe o que dizem sobre a cautela...
	Prefiro a rapidez e a eficincia. Ou ser que est tentando ganhar tempo e pensar num plano de fuga?
	No.  Definitivamente.
Gray voltou at a porta para ler a placa na vitrine.
	Aqui diz que ela estar de volta em quinze minutos. Devemos ficar  vontade enquanto esperamos.
	Gray...
	Desista, meu bem, No vou mudar de ideia. Tambm no vou discutir o assunto. Voc imps duas condies com relao ao meu pedido de casamento, e nenhuma delas estava relacionada ao tempo de noivado.
	Nesse caso, gostaria de negociar uma terceira condio.
	Pense bem, Emma. Quanto antes marcarmos a data, menos tempo eu terei para adivinhar qual  seu maior desejo.
Por alguma razo, o comentrio provocou um efeito contrrio ao esperado. Em vez de sentir-se aliviada, Emma experimentou um frio intenso que envolveu seu corao e foi se espalhando por todo o corpo. Sabia de onde vinha a sensao. Estava se escondendo da verdade h meses. Queria que Gray atendesse aos seus pedidos, e esse era um desejo mais forte e imperioso que todos os outros. S havia uma razo para justific-lo: o imenso amor que ainda sentia por esse homem e o sonho de casar com ele. Ela fechou os olhos. Como isso podia ter acontecido? Julgava ter superado o doloroso envolvimento com Gray.
	Tenho uma ideia  ele anunciou, examinando uma enorme fileira de cabides com vestidos de noiva.  Vou comear por uma das pontas. Voc comea pela outra, e ns nos encontramos no meio. Se formos sistemticos, j teremos um vestido escolhido quando Mary Lou chegar.
Emma tentou aparentar calma. Normalidade. At uma certa casualidade.
	No seja ridculo. Mary Lou disse que devamos ficar  vontade, e  isso que vou fazer.  Ela se dirigiu ao balco onde havia um servio de ch.  Quer caf?
	Prefiro cuidar dos negcios. Viemos aqui para escolher um vestido de noiva, lembra-se? Que tal este aqui?
	Esquea. No quero entrar na igreja parecendo uma toalhinha.
	Toalhinha?
	Sim, aquelas de renda que as avs costumavam colocar sob todos os objetos da casa.
	Toalhas de renda?
Emma levou a xcara de caf para uma mesa de canto e sentou-se na poltrona mais prxima. Depois ergueu um vaso com flores e apontou para a toalha embaixo dele.
	Aqui est. Uma toalhinha de renda.
	Ah...
	Agora imagine uma pilha delas com um metro e sessenta de altura. Depois coloque-me no meio delas.
	Pelo amor de Deus! Vamos esquecer este vestido. E este aqui?
	No. Todas essas fitas entrelaadas me fariam parecer uma vtima de um acidente grave envolta em bandagens.
Escute,  melhor servir-se de uma xcara de caf, porque no vou escolher meu vestido com sua ajuda.
	Por que no?
	Porque o noivo no deve ver o vestido antes do casamento. D azar. E no precisamos desafiar o destino nesse sentido, certo? J tivemos todo o azar que podamos suportar. Quando Mary Lou voltar, direi a ela o que estou procurando e marcarei um horrio para fazer a prova. Satisfeito?
	E claro.  Gray aproximou-se da poltrona ao lado da dela, ps a mo no bolso e comeou a remover dele um objeto qualquer, mas mudou de ideia e sentou-se.  Depois de conversarmos com Mary Lou, iremos direto para a floricultura.
	O que h de to importante em seu bolso?
Ele ergueu as sobrancelhas.
	Nada.
	Nada? Voc nunca pe a mo no bolso, e hoje parece no conseguir tirar a mo dele. O que tem a dentro?
	Voc ver mais tarde.
	No estou fazendo nada importante. Qual  o grande mistrio? Vamos, quero saber o que h em seu bolso.
Ele hesitou por um instante. Depois ps a mo no bolso e tirou dele uma caixa de joalheria.
	Queria esperar at hoje  noite  disse.  Pretendia lev-la a algum lugar romntico para marcar a ocasio.
	Isso  o que estou pensando que ?  Emma perguntou apavorada.
Gray abriu a caixa um diamante fabuloso cintilou sob as luzes da loja.
	E seu  ele murmurou com voz rouca ao colocar o anel em seu dedo.
	Parece... familiar.
	Na verdade, mandei fazer a jia a partir de outras duas peas. Se olhar bem ver que a aliana de casamento de sua av foi entrelaada ao anel de noivado de sua me.
Tee me deu os dois anis.
Gray no podia ter feito tudo aquilo em duas horas. Um trabalho como aquele exigia semanas de empenho. Emocionada com o gesto e com a jia de rara beleza e valor sentimental inestimvel, ela murmurou:
	Quando...?
	H seis meses. Eu pretendia pedi-la em casamento, mas no tive chance.
Porque tomara a companhia de seu av, e ela o deixara por conta disso.
	No sei o que dizer.  Lgrimas brotavam em seus olhos.  E lindo. Obrigada.
	Vai us-lo?
Teriam de arrancar seu dedo para impedi-la. Emma levou as mos ao rosto de Gray para afag-lo.
	Sim  respondeu, deixando correr uma lgrima de emoo.   claro que vou us-lo.
E ento ela o beijou, revelando nesse beijo tudo que havia mantido escondido em seu corao. Amava esse homem. Sempre o amara. Infelizmente, nem sempre o amor era suficiente. Outra lgrima escapou. Ele podia negociar um noivado e colocar um anel em seu dedo, mas o casamento no aconteceria. Como poderia?
Gray jamais atenderia ao seu segundo pedido. No o Grayson Shaw que conhecia.
No incio, Emma pensou que ele tentava mant-la ocupada para evitar que protestasse contra o casamento. Depois ela percebeu que no era isso. Gray estava se divertindo com os preparativos, apreciando cada momento de planejamento, desde a escolha das flores at o sabor do recheio do bolo. Por menor que fosse o detalhe, ele sempre participava e opinava, sem nunca ignorar suas preferncias ou tentar impor seu gosto pessoal. Aqueles eram momentos especiais. Momentos de alegria que ela jamais poderia esquecer.
Quando estavam sozinhos, sentia a tenso borbulhando sob a superfcie e compreendia todo o esforo que ele fazia para conter-se. O tempo parecia parar e ganhar intensidade, como se estivessem a um passo de uma grande descoberta. Era durante esses momentos to especiais que o noivado parecia ser real, como se houvesse realmente uma chance de tudo dar certo, de serem felizes juntos.
Na manh anterior ao casamento, Emma decidiu que precisava de alguns instantes de solido para relaxar e ganhar flego. Estava sentada na poltrona de Tee, descansando, quando ouviu as batidas na porta.
	Entre.
A cabea de Gray surgiu na fresta.
	Que bom que a encontrei.
	Algum problema?
	No. Tenho um presente para voc.
	Um presente?  Ela esfregou as mos num gesto entusiasmado, quase infantil.  O que ?
	Quem .  Gray abriu a porta e afastou-se para permitir a entrada de Tess e Raine.  Perdeu a chance de passar aquelas horas com elas antes do casamento de Tess. Estou apenas tentando compensar a perda.
Emma olhou para as duas boquiaberta. Gray estava sempre provando sua considerao, seu carinho. Com exceo do anel, aquele era o melhor presente que um homem podia dar a sua noiva horas antes do casamento.
Emocionada, ela se levantou, correu para abraar as amigas e fez a nica coisa que uma mulher em sua situao poderia fazer. Chorou.
O que quer dizer com isso? Emma desapareceu?  Gray repetiu confuso.
 Foi o que eu disse  Tee respondeu com a testa franzida.
Era melhor manter a calma. Mesmo que para isso tivesse de investir toda a energia que tinha em um nico propsito.
	Quando a viu pela ltima vez?
	Bem, num minut ela estava na biblioteca, rindo e conversando com as amigas. No outro elas distribuam beijos de boa noite. A propsito, qual  o problema com aquelas mulheres? Por que tantos beijos e abraos? Sou um pobre velho que acaba de escapar de seu leito de morte. Meu corao no suporta tanta excitao.
	Tee!
	Acalme-se, rapaz.  Tinha de disfarar a apreenso, ou Gray entraria em pnico.  Assim que os beijos e abraos terminaram, Emma correu porta afora.
	Com Tess e Raine, ou sozinha?
	Sozinha. E ela estava chorando.
	Emma estava chorando?
	No foi o que acabei de dizer? Eu avisei que trazer as amigas dela para c no era uma boa ideia. Aposto que elas passaram a noite toda tentando convenc-la a desistir do casamento.
	E conseguiram?
	Talvez. Um pouco...
	Como sabe disso?
	O que posso fazer se Deus me deu bons ouvidos?
	Sei. Estava ouvindo atrs da porta.
	E claro que no! H uma vidraa na cozinha que se abre para a biblioteca. De l  possvel ouvir cada palavra que for dita no outro aposento. E claro que vai ter de subir na mesa para isso.
	Entendo. E voc estava na cozinha, por acaso, em cima da mesa.
	Estava com fome. E j que estava l, decidi verificar se a mesa ainda era slida. Descobri que a mesa ainda vai durar uns bons anos, e tambm que... Bem, tenho uma notcia que vai fazer de voc um homem feliz.
	Vamos com calma. Primeiro tenho de encontrar Emma. Tem uma lanterna? Acho que sei onde ela est.
	Na casa da rvore?
	Esse  o meu palpite.
Depois de certificar-se de que a lanterna tinha pilhas novas, Gray saiu pela porta dos fundos e constatou que, graas  lua cheia, no precisava da luz artificial. S voltou a usar o equipamento quando entrou no bosque perto de Nugget Creek.
A vegetao da trilha entre as rvores havia crescido, o que no causava espanto, uma vez que no havia mais nenhuma criana por ali. Em breve haveria, se pudesse convencer sua futura esposa de que seus filhos adorariam brincar na casa da rvore e transform-la na plataforma de embarque para a nave interplanetria Starship. Essa era sua brincadeira favorita quando ainda eram apenas duas crianas.
Gray puxou a escada de cordas que dava acesso  casa construda sobre vrios galhos e gritou:
	Permisso para subir a bordo, capito!
Para seu alvio, uma risada abafada cortou o ar morno da noite de vero.
	Qual  a senha, Matey?
	Luz sobre ns, Scotty.
	No  essa.
	Droga!
	Tambm no  essa.
	Vida longa e prspera?
	No?
	Jornada intergalctica?  Como poderia lembrar essa bobagem depois de mais de uma dcada?  Use a fora, Luke?
	Est misturando os filmes. A fora  de Guerra nas Estrelas. Eu prefiro Jornada nas Estrelas.
	Isso no me ajuda a lembrar a senha. Ser que pode dar uma dica?
	E "problemas com o protomotor".
	 claro. Como pude esquecer o protomotor? Pena no saber o que  isso.  Gray comeou a subir.  Tenho permisso para embarcar, mesmo sem a senha?
	Sim, mas quero verificar suas credenciais.
	E justo.
Gray entrou na casa da rvore. Emma estava sentada em um canto, abraando os joelhos. A lanterna representava uma intruso naquele paraso particular, e ele a desligou.
	Obrigada.	*'
	Por nada.
No silncio da noite, Gray podia sentir a tenso e as barreiras que ela erguera para mant-lo afastado. No era um bom sinal. Teria de ser cauteloso, ou poderia pr tudo a perder.
	H quanto tempo no vimos aqui?
	Juntos? Dez anos, mais ou menos.
	E voc? Quando esteve aqui pela ltima vez?
	H seis meses.
No precisava ser um gnio da matemtica para fazer o clculo.
	Quando nos separamos?
	Sim.
	Isso significa que, se veio para c, alguma coisa no vai bem.  E algum era culpado por isso. Ele?  O que foi? No gostou do reencontro com Tess e Raine? Errei ao traz-las para c?
	Foi maravilhoso rev-las. Obrigada.
	Ento... elas disseram algo que a aborreceu?
	Tess est muito feliz com Shayde. Devia v-los juntos.
	E...?
	No sei se seremos to felizes quanto eles. No tenho certeza de que poderemos resolver nossas diferenas.
Ela estava chorando. Suas lgrimas eram como punhais cravados no corao de Gray.
	No acredita que eu possa adivinhar qual  seu desejo, no ?
	No. Se tem mesmo de adivinh-lo, ento no vai acontecer. Ou entende o que eu quero, ou no entende. E receio que nunca possa entender.
Gray tentou encontrar uma soluo. Qualquer uma, menos a que mais fazia sentido naquelas circunstncias. Era intil.
	Podemos cancelar o casamento.  Era a sugesto mais difcil que j oferecera.  Podemos esperar at voc ter certeza de que devemos mesmo nos casar.
	Esperar no vai mudar nada.
A frustrao era quase insuportvel.
	Pelo amor de Deus, Emma, no consigo entender o motivo de todo esse mistrio. Para que- o jogo, as condies? 
	No  um jogo. H algo que quero de voc. Ou melhor, preciso. Tenho de saber se voc enxerga as coisas como eu. Porque, se no for assim, nosso casamento no vai dar certo.
	Ento, por que no diz de uma vez o que voc quer?
	No posso.
	No vai dizer, no ?
	Eu poderia enfiar tudo isso em sua cabea, mas prefiro ver florescer o conceito em seu corao.
	Est criando obstculos, Emma, e tudo porque tem medo de me amar. Tem medo de que um dia eu possa deix-la, como fizeram seus pais e sua av, e isso a faria sofrer outra vez.
	No tenho medo de am-lo nem de me casar. E isso no tem nada a ver com meus pais e minha av.
	No? Ento, do que tem medo?
	Receio que voc no possa me dar o que eu quero e, quando estivermos diante do altar, o casamento tenha de ser cancelado.
	Se voc disser "maldio, sim, eu quero esse homem comigo", nada ser cancelado.  simples.
	O Reverendo Franklin vai ficar mais satisfeito com um simples "sim".
	Meu bem, um simples "sim" jamais poder expressar o que sinto com relao a fazer de voc minha esposa. Por isso considero tudo isso to frustrante.
	No tem a menor ideia do que eu quero, no ? 
No tinha. Mas estava disposto a tudo para fazer os votos que os uniriam para sempre, para forjar o lao que ambos desejavam mais que tudo.
Talvez injetando um pouco de humor na conversa...
	Por acaso esse seu pedido envolve um protomotor?
	No. Quer uma pista?
	Est perguntando, ou oferecendo?
	Pode ser uma oferta, se quiser.
A ideia era tentadora. Principalmente porque, naquelas circunstncias, talvez pudesse arrancar mais do que uma simples pista. Emma estava frgil, vulnervel, emotiva... E soava desesperada. Algumas palavras combinadas a uma presso sutil poderiam pr fim ao mistrio.
Mas corria o risco de pr fim tambm s esperanas de Emma,  luz que vira cintilar em seus olhos no momento em que pusera o anel em seu dedo ou a acompanhara  floricultura e discutira os detalhes do casamento.
	No. No quero nenhuma pista. Faremos a coisa da maneira correta. Quando nos casarmos, ser porque ns dois teremos certeza de que esse  o passo mais acertado em nossas vidas.
	Tem certeza de que no quer uma pista?
	No tenho certeza de nada, mas  assim que vai ser. S preciso de uma coisa, Emma.
	O que ?
	Preciso ter certeza de que no est tentando impedir o nosso casamento por medo.

CAPITULO IX
Assunto: Estou pondo um fim nisso Para:       
 	  "Chefe"
adelaide @ comitecupido.com
De:	"Gray Shaw" grayson_shaw@galaxies.net
CC:         "Thomas Palmer"
palmer@worldstar.com
"Sr. Encrenca Extraordinria"
shadoe@comitecupido.com
"Tess Lonigan" ganO1 @altruistics.net
"Prefeito Hornsby"
grandequeijo@worldstar.com
Esta  uma notificao formal de que estou f pondo um ponto final nesse negcio. No haver mais tentativas de aproximao. Todas as apostas esto oficialmente encerradas. Chega.
Gray
Assunto: Re: Estou pondo um fim nisso
Para:       Gray Shaw grayson_shaw@galaxies.net
De:	"Chefe"
adelaide@comitecupido.com
Gray,
Por favor, entenda que certos eventos, quando provocados, so impossveis de deter.
Adelaide, Presidente do Comit Cupido
Assunto: Re: Estou pondo um fim nisso
Para:       "Chefe" adelaide@comitecupido.com
De:	Gray Shaw grayson_shaw@galaxies.net
Impossveis de deter? Espere s para ver. G.
	No tenho medo de am-lo, Gray. De onde tirou essa ideia?
	Voc j sofreu muitas perdas. Seus pais, sua av, suas amigas... Tem medo de sentir que perdeu parte de si mesma,
caso acontea alguma coisa que possa separar-nos. Entendo esse sentimento, porque tambm tenho a sensao de ter perdido parte de mim quando estou longe de voc.
	Oh, Gray...
	Por isso imps condies para o nosso casamento.
	No. No foi o medo de amar que me fez impor condies, mas o medo de nossas diferenas.
	J sei. A palavra "implacvel" vai entrar nessa conversa a qualquer mornepto.
	Agora.
	Est bem, admito ser implacvel. Por que isso deve impedir nosso casamento? E que relao isso pode ter com seu pedido misterioso?
	Se eu disser o que quero, sua cabea entrar em ao. Atacar o problema com uma estratgia comercial, de forma sistemtica e intelectual.
E que outra maneira havia para superar um obstculo?
	Suponho que no deva resolver assim esse problema em particular.
Ela balanou a cabea.
	Para atender ao meu desejo, ter de usar o corao.
Se conseguir usar o corao, entender o que quero na essncia de sua alma. Por isso duvido de que possa atender-me. Voc nunca foi capaz de pensar com o corao. No faz parte da sua natureza.
	Isso  irracional, Emma. Como algum pode pensar com o corao?
	Sugiro que encontre essa resposta sozinho. No pode resolver esse problema como se tratasse de negcios, porque
no sou uma coluna de nmeros que pode somar para chegar a um resultado.
	Droga, Emma!  Gray explodiu frustrado.  No sou como voc. No resolvo os problemas com o corao. No
posso mudar minha natureza. Estou de mos atadas! Voc colocou condies impossveis s para provar que temos personalidades diferentes. Acho que ns dois sabamos disso desde o incio, no?
	No somos apenas diferentes. Somos opostos.
	Quer dizer que somos incompatveis, que nosso casamento jamais daria certo? Est enganada, Emma, e vou provar que est errada.
	O Sr. Implacvel entra em ao.
	No. E o Sr. Desesperado que vai agir.  Incapaz de continuar argumentando, ele a tomou nos braos. Emma no resistiu, contrariando com o corpo tudo que acabara de dizer com os lbios.  Esta no ser nossa ltima noite, Emma.
Amanh seremos marido e mulher. Prometo.
	Faa amor comigo, Gray.
	Por qu agora? Esta noite?
	Voc sabe.
- Por que tem medo de que no haja um amanh para ns?
	Por que tem sempre de analisar tudo? No podemos ter uma noite juntos sem recriminaes ao amanhecer?
A raiva que o invadiu era incontrolvel.
	Quer dizer sem recriminaes quando nosso casamento no acontecer amanh?
	Isso depende de voc. Vai desistir?
	Eu nunca desistiria de voc.  E ele a beijou.
Fizeram amor na casa da rvore, e pela primeira vez Gray no se importou por estarem deitados no cho, sobre um piso de tbuas, ou por no terem proteo. No possua aquele corpo h seis meses, uma eternidade, e no suportava mais a espera, a privao e o desejo insatisfeito.
 Juro que isso no  o fim  ele disse ao penetr-la.  Isso  s o comeo, Emma.
A lua banhava os corpos nus e entrelaados. Apague esse sorriso idiota de seu rosto, Gray ordenou a si mesmo. Mas era impossvel. Depois do que haviam vivido, tinha certeza de que poderia atender ao desejo secreto de Emma. Nada o separaria daquela mulher. Usaria a cabea e a razo, empregaria todos os mtodos de anlise de que dispunha, e assim descobriria o que ela esperava que fizesse.
Ou melhor... Isso era justamente o que ela no queria que fizesse.
Um toque de incerteza brotou em seu corao.
Podia atender seu desejo... certo?
A lua banhava os corpos nus e entrelaados. No chore, Emma ordenou a si mesma. Mas era impossvel. Depois do que haviam vivido, tinha certeza de que Gray jamais poderia atender ao seu desejo secreto. Ele usaria a cabea e a razo, empregaria todos os mtodos de anlise de que dispunha, e assim nunca descobriria o que ela esperava que fizesse.
Ou talvez... Gray poderia ser intuitivo ao menos uma vez? Impulsivo. Emocional. Passional.
Um sorriso distendeu seus lbios. Ele abordaria a questo exatamente como queria que fizesse.
Um toque de otimismo brotou em seu corao.
Gray podia atender seu desejo... certo?
Era intil. A lgica era um instrumento imprestvel com Emma. No ia dar certo. O nervosismo crescia, beirando o desespero. O que quer que dissesse, no conseguiria convenc-la. Quando o sol mergulhasse no horizonte no dia seguinte, ele e Emma seguiriam caminhos distintos. Fim da histria.
Emma suspirou relaxada. Gray encontraria o caminho. Pensando bem, ele sempre tivera sentimentos verdadeiros por ela. O que quer que acontecesse, ele corresponderia  expectativa. Quando o sol mergulhasse no horizonte no dia seguinte, ela e Gray seriam marido e mulher. Seria mesmo o incio de uma linda histria. Como ele prometera.
Gray passou a mo pelos cabelos que havia acabado de pentear. Seu tempo terminara, e saltaria para o abismo vestido em grande estilo.
Shayde e Shadoe haviam se juntado ao cortejo, deixando-o sozinho por alguns minutos. Ele examinou o reflexo no espelho pela ltima vez. Apesar de preferir ternos pretos, Em-ma havia sugerido que aquele fosse cinza, uma referncia ao seu nome, e no tivera coragem de contrari-la depois de ver a alegria estampada em seu rosto e a excitao iluminando seus olhos. Por um instante, naquele momento, o noivado no fora apenas o resultado das manipulaes de um comit estpido, mas um envolvimento real.
Estava decidido. Qualquer que fosse o preo, transformaria a fantasia em realidade. Sabia que Emma o amava, que queria aquele casamento tanto quanto ele. S precisava tirar do caminho o obstculo que ela criara.
A porta da sala reservada se abriu e.Tee entrou com uma expresso curiosa no rosto.
	Veio desejar-me sorte?
	Voc no precisa de sorte, rapaz  ele respondeu irritado.  Precisa de ajuda, ou vai passar a maior vergonha diante de Emma e de toda a cidade.
	No tenho tempo para isso.
	Ah, sim, voc tem. Tentei falar ontem  noite, mas voc saiu antes que eu pudesse dizer a primeira frase.
	Eu precisava encontrar Emma.
	E agora precisa me ouvir. Isto , se tem alguma inteno de sair da igreja casado.
	O que quer dizer?
	Quando Emma conversava com as amigas na biblioteca, ouvi algo muito interessante... Algo que vai fazer de voc
um feliz homem casado.
	Nervosa?  Raine perguntou.
Emma balanou a cabea. O que sentia ia alm do nervosismo. No sabia se queria rir ou chorar, embora as lgrimas fossem uma forte possibilidade. Para onde fora a confiana da noite anterior?
	Uma noiva no deve sentir essas coisas. Uma noiva deve estar feliz, cheia de esperana...
Tess aproximou-se e arrumou o vu sobre sua cabea.
	O que mais a incomoda?  perguntou.  Saber que ele pode deixar de atender ao seu desejo... ou antever a possibilidade de ser atendida?
	Eu quero me casar com Gray. Amo esse homem mais do que a mim mesma. Mas ele est certo... Talvez eu o esteja obrigando a tentar o impossvel por medo.
	Medo do qu? Por que no fala conosco?  Tess sugeriu preocupada.
Emma tentou explicar com palavras o que levara anos para entender.
	Gray  minha outra metade. Sempre foi. Temos tentado ignorar esse fato h mais de uma dcada, evitando o encontro por conta das diferenas e do passado. Tentei mant-lo afastado por saber que, uma vez reconhecido esse amor, eu estaria vulnervel. Era mais seguro fingir que o sentimento no existia.
	E agora que admitiu am-lo?
	No suporto a ideia de perd-lo.
Tess e Raine trocaram um olhar de compreenso e cumplicidade.
	No precisa manter sua segunda condio  disse Raine, a mais prtica do trio.  O que quer que ele diga, aja
como se ele houvesse acertado em cheio ao tentar adivinhar seu desejo.
	 isso mesmo  concordou Tess.  Voc mesma vive dizendo que Gray  implacvel, que no aceita a ideia de errar... Ele vai acreditar que acertou.
	Ser implacvel at que  uma qualidade  Emma opinou.
	 claro que sim! E uma caracterstica vital em quase todos os homens  confirmou Raine.  Ela  indispensvel em um empresrio, em um negociante, em um auditor, em um caubi...
	Caubi?  Emma repetiu desconfiada.
	Voc entenderia se conhecesse meu vizinho. Gray  um cordeiro comparado quele homem.
	Emma, se ama Gray tanto quanto diz, se no suporta a ideia de perd-lo, ento tem de se casar com ele  resumiu Tess.
	Eu sei que ele me ama tanto quanto eu o amo, mas... Ora, uma metade no deve ser mais forte do que a outra, ou o equilbrio torna-se impossvel. Antes de aceit-lo como marido, preciso ter certeza de que ele no tentar subjugar-me.
	No acredita que ele poder atender  condio que imps para o casamento, no ?  Raine perguntou sem rodeios.
	No. Mas ainda no perdi toda a esperana.

CAPITULO X
Assunto: Relatrio Final, Emma Palmer
Para:       comite@comitecupido.com
De:	"Chefe"
adelaide@comitecupido.com
Correndo o risco de experimentar nosso primeiro fracasso, decidi implementar um plano final. Tee recebeu instrues sobre o que deve fazer. Se tudo correr de acordo com o planejado, Emma e Gray estaro casados no final do dia.
Adelaide, Presidente d Comit Cupido
Gray esperava sozinho no altar. O cortejo progredia lentamente, causando uma incmoda sensao de dja v. Rai-ne e Shadoe eram os primeiros, seguidos por Tess e Shayde. Todos pareciam solenes demais para uma ocasio que devia ser alegre. Ningum acreditava que o casamento se realizaria. Todos duvidavam de sua capacidade de adivinhar o maior desejo de Emma.
Os dois casais chegaram ao altar seguidos pela menina das flores e pelo garoto das alianas. O organista provocou um enervante minuto de silncio antes de comear a Marcha Nupcial, incitando todos os convidados a se levantarem. Emma entrou na igreja guiada por Tee... e Gray esqueceu de respirar.
Nunca a vira to linda! Com os cabelos presos e enfeitados por pequenas prolas, ela exibia um elegante vestido branco de corte ajustado ao corte e cintura marcada por um lao... vermelho!
Gray engoliu o riso com dificuldade.
Quando estavam chegando ao altar, Tee soltou a mo dela e bateu com a bengala contra o carpete.
	Quero que saibam que no estou feliz com isso.
O organista concluiu a ltima nota da Marcha Nupcial e a igreja mergulhou num silncio profundo.
	Vov...
	Quieta, Emma. Vim para um casamento, e tenho a sensao de que sairei daqui sem ver a concluso da cerimnia. E a culpa  toda sua  ele apontou a bengala para Gray.
	Eu sei.
Tee olhou para a neta com expresso zangada.
	E voc, mocinha, se insistir em levar essa tolice adiante, espero que seja justa e razovel. Quantas chances o pobre
garoto vai ter para adivinhar esse seu desejo secreto?
A pergunta provocou uma reao imediata dos convidados. Todos falavam ao mesmo tempo em voz baixa, at que, depois de alguns minutos, um homem que trabalhava na fbrica de calados anunciou:
	Acho que ele deve ter trs chances. E a tradio, Emma. Como nos contos de fadas.
	Esses so os pedidos, idiota  Tee retrucou mal-humorado.  Mas trs  um bom nmero.
O reverendo Franklin olhou para a noiva.
	Como devo proceder? Prefere que Gray tente adivinhar
seu desejo agora, ou devo comear a cerimnia?
	Acho melhor Gray fazer suas trs tentativas antes de comearmos a cerimnia.  Ela o encarou com os olhos cheios
de esperana.  E sua vez.
	Rpido, diga que a ama!  A viva Bryant gritou do fundo da igreja.  Toda mulher quer ouvir essas palavras.
Emma virou-se com um sorriso triste.
	Eu sempre soube que Gray me ama. Nunca duvidei disso.
	E amo de verdade  ele confirmou.  Mais do que podem expressar as palavras. Nunca se esquea disso.
	Filhos!  algum arriscou.  Talvez ela queira filhos.
	No  Emma balanou a cabea.  No so filhos, embora os queira com certeza.
	Diamantes?  arriscou a dona da floricultura.
	No.
	Uma casa  disse o padeiro.  Toda mulher quer uma casa.
	Bobagem  Shayde protestou impaciente.  Gray tem meia dzia delas, e j estabelecemos que Emma no  tipo de mulher que se pode comprar com bens materiais.
	Talvez ela queira que Gray pea desculpas por ter assumido o controle da Palmer Calados.
	Por qu?  o capataz da fbrica reagiu de imediato.
 No fosse por ele, estaramos todos desempregados! E o pobre-coitado deve ter gasto toda sua fortuna salvando aquela fbrica.
	Isso  verdade?  Emma indagou preocupada.
Gray respirou fundo. Droga! No queria que ela soubesse disso.	.-
	Se fosse, isso atenderia a sua condio?
	Estou falando srio, Gray. Ps todo seu dinheiro na Palmer Calados?
	Terei um bom retorno. Eventualmente. Tee no contou nada? Vamos entrar no ramo dos sapatos costurados  mo! Todos os magnatas do Vale do Silicone e de San Francisco viro a Palmersville encomendar seus calados. J temos muitas encomendas.
	Mas no o suficiente, aposto.
	Sou um contador competente. Sei lidar com oramentos apertados.
	Quem vai ter de apertar o oramento? Voc? E tudo porque salvou a Palmer Calados?
	Ah, agora eu salvei a companhia? Pensei que a houvesse roubado de seu av.
	Estou falando srio, Gray.
- Eu tambm. Nosso relacionamento vai sofrer alguma mudana por eu ter salvo boa parte da cidade resgatando a fbrica de sapatos? Ela suspirou.
	Aposto que devo dizer no para isso, no ?
	Talvez. Mas, salvando a Palmer Calados, tornei-me repentinamente magnnimo, purificado pelo sacrifcio.  isso? 
	Talvez.
	No.
	Droga!  Emma jogou o buque no cho.  Sabia que essa era a resposta errada. Devia ter dito no, certo?
	Certo. Devia ter dito no.
	Por qu?
	Porque ser implacvel para salvar a cidade e a fbrica  uma qualidade, uma caracterstica positiva, mas quando essa mesma caracterstica se aplica a voc, a ns dois, ela passa a ser negativa.
	H uma razo para isso.
	Chega, Emma.  hora de encerrarmos essa histria. Como dizem, um leopardo no pode mudar suas manchas.
Lamento, meu bem, mas as manchas estaro comigo at o fim.
	O que quer dizer?  ela perguntou em voz baixa e alarmada.
	Amo voc. Muito. Quero me casar com voc e passar o resto da minha vida a seu lado. Quero ter filhos com voc
e envelhecer com voc. Ou tambm me ama e quer tudo isso, ou no. E no vou obrig-la a me aceitar usando truques e artimanhas para convenc-la. No serei implacvel.
	Est desistindo?  Emma agarrou-o pelas mangas do palet.  No pode desistir! Devia ser implacvel e persistir!
	No sei qual  seu desejo. No pude adivinh-lo usando as ferramentas de que disponho, a lgica e a razo. Acabou.
 Ele se virou para os convidados.  As apostas terminaram.
Era intil continuar ali exposto  piedade de toda a cidade. De cabea baixa, Gray desceu os degraus do altar para sair da igreja.
	Droga, Gray!  Emma levantou o vestido para seguiIo. Quando o alcanou, j perto da porta, segurou-o pelo palet e obrigou-o a parar.  No vai fugir disso tudo.
	De que adianta ficar? No sei o que voc quer. Ningum sabe.
	Eu sei  Tee anunciou.  E voc tambm saberia, se tivesse me escutado. Mas, no, tinha de ser um exemplo de nobreza e carter, em vez de aproveitar todas as chances como tentei ensin-lo a fazer desde a infncia. Sr. Implac
vel! Ah! Sr. Princpios, isso sim!
	Vov, voc no pode saber o que quero de Gray ou...
	Eu sei. Ouvi quando conversava com suas amigas.
	Ouviu?
	Por acaso,  claro. Fiz de tudo para passar a informao para esse garoto, mas ele no quis me ouvir.
Emma olhou para Gray.
	Isso  verdade?
	Sim,  verdade. J havia trado sua confiana uma vez. Mais de uma vez, para ser honesto. No podia tra-la novamente.
	O que quer dizer?
	Quero dizer que voc^ est certa. Sou implacvel, e no s com relao aos negcios. Tambm sou assim em minha vida pessoal. Sou to implacvel e inescrupuloso, que contratei um grupo chamado Comit Cupido, uma equipe especializada em criar artimanhas e promover a aproximao de casais. Pedi a eles para usarem todos os artifcios para envolv-la, para fazer voc se casar comigo. Tratei a conquista do seu corao como uma negociao comercial. No queria saber quais seriam os mtodos desse grupo, desde que o resultado fosse t-la em minha cama, com minha aliana em seu dedo.
	Gray...
	Ainda no terminei. Quando Tee se ofereceu para revelar qual era seu desejo secreto, quase aceitei a oferta. No queria perd-la por causa de uma condio ridcula. Depois de ontem  noite, teria feito qualquer coisa para t-la comigo.
	Por que mudou de ideia?
	Porque no me sentiria feliz mentindo para voc, trapaceando a fim de t-la comigo. E eu teria de mentir, porque a conheo e sei que perguntaria como descobri qual era seu desejo secreto.
	E por isso se recusou a ouvir meu av? Por que no queria trapacear?
	Tambm.  Ele pousou as mos sobre seus ombros.  Na verdade... No consegui esquecer aquele olhar estranho.
	Olhar? Do que est falando?
	Quando voltamos de Seattle, voc olhou para mini de um jeito estranho no quarto de Tee, e levei aquele olhar gravado na memria. Foi como se eu a houvesse magoado de alguma maneira.
	Ah, aquilo... Foi por causa de Adelaide.
	Adelaide?
	Acha que no a reconheci? Francamente! No sou nenhuma idiota. Assim que a vi fingindo ser enfermeira, imaginei que voc e ela haviam pressionado meu av para que ele fizesse aquele pedido em seu leito, de morte.
	Como se o velho lagarto necessitasse de alguma presso!
	Por isso olhei para voc daquela maneira. Fiquei desapontada por ter tentado me enganar.
	Eu sinto muito, docinho. Agora entendo que errei. Fui mesmo implacvel com voc. Tentei domin-la, quando meu objetivo devia ter sido apoi-la sempre, em todos os momentos.
	Bem, os opostos sempre foram as duas metades de um todo.  possvel uni-los.
	No foi o que voc disse ontem. Mudou de ideia?
	Sim.
	Por qu?
	Eu sei porqu!  Tee exclamou com euforia.  Porque voc conseguiu! Descobriu tudo sozinho! Quem diria?
	 verdade, Gray. Meu segundo desejo... Queria que voc me contasse que foi pedir a ajuda do Comit Cupido.
Gray recuou um passo e encarou-a chocado.
	Ento... voc sabia?
	Tess!  Shayde gritou furioso.  Voc prometeu que no contaria a ela!
Tess ps as mos na cintura.
	No se atreva a falar comigo nesse tom, Richard Shayde Smith! Com todos os seus instigadores em ao, minha amiga merecia uma chance justa, algo que no teria se desconhecesse as atividades do Comit Cupido. Falo por experincia prpria.
	Quanta generosidade, minha querida esposa. Esqueceu que foi a primeira a pedir nossa ajuda nesse caso? Foi voc quem sugeriu que Gray e Emma deviam ser unidos.
	Na verdade, eu no me lembrava mais disso  ela respondeu em voz baixa.
	Tess, como teve coragem?  Emma protestou.  Voc  minha amiga!
	Ei, voc me pediu para encontrar sua alma gmea, caso ainda estivesse solteira ao completar trinta anos. Foi o que eu fiz. Estava lhe fazendo um favor.
	No tente fazer o mesmo por mim  disse Raine.  Lembro-me desse acordo. Tnhamos... o qu? Vinte anos?
Estou retirando meu pedido em carter formal. No estou interessada riesse tipo de unio.
	Bem, j que  hora de confisses, tambm quero fazer a minha  Tee anunciou' srio.  Tambm procurei o Comit Cupido. Adelaide no estava em meu quarto a pedido de Gray, mas a meu pedido.
	Meu Deus! Tambm tenho algo a dizer  confessou a viva Bryant.  De fato, minha participao  a maior de
todas, porque entrei em contato com o Comit Cupido representando toda a cidade. Somos quase cem pessoas tentando
casar vocs dois.
	Quatro solicitaes?  Emma indagou perplexa.  E todas em meu nome?
	No fique zangada, benzinho  murmurou Gray.
	Zangada?  Lgrimas brilhavam em seus olhos.  Essa  a coisa mais doce que algum j fez por mim.
	Nesse caso, que tal resolvermos essa histria de uma vez por todas?  Tee interferiu.  O reverendo est esperando.
 E ento, Emma? Quer se casar comigo? Ela se atirou nos braos de Gray.
	 claro que sim!
Aplausos, gritos e assobios soaram na igreja.
O Reverendo Franklin realizou a cerimnia em poucos minutos, temendo que o casal mudasse de ideia.
 Eu os declaro marido e mulher  disse.  E isso encerra as apostas. O prefeito Hornsby estar ao lado da fila dos cumprimentos fazendo os pagamentos.
Gray segurou a mo da esposa e levou-a para fora da igreja. O futuro seria lindo e radiante. Em breve teria a Palmer Calados prosperando novamente. Voltariam a morar em Palmersville, entre familiares e amigos. Em poucos anos, ele e Emma estariam cercados de filhos. O caminho para Nugget Creek seria usado regularmente, e a casa da rvore seria novamente povoada por vozes alegres e esperanosas, pelo riso e pela alegria de crianas felizes.
Todos seriam felizes. Gray cuidaria disso.

EPLOGO

Shadoe serviu champanhe em duas taas de cristal e levou-as para a mesa de Adelaide.
	Devo reconhecer, chefe, que desta vez superamos todos
os esforos anteriores.
	Quase fracassamos, filho.
	Mas conseguimos, e  isso que importa. Acha que Gray aprendeu a lio, me?
	Se no aprendeu, Emma ter a vida toda para continuar ensinando.
	E verdade. Bem, agora resta apenas Raine.  Shadoe sentou-se e ps os ps sobre a mesa.  Ela no parece estar muito interessada em nossa ajuda.
	No est mesmo, e por isso temos de ser cautelosos.
	Espero que a misso seja mais fcil do que as duas anteriores.
	Francamente, Tom! Depois de anos de prtica, devia saber que nada  fcil nesse nosso ramo.
	Era o que eu temia ouvir. Tem algum em mente?
	O homem perfeito.
	Quem  dessa vez? Outro capital da grande indstria? Ou um sujeito implacvel como Gray?
	Acho que esse parceiro ser uma grande surpresa para Raine.  Adelaide sorriu com ar misterioso.  De fato, estou disposta a apostar que esse caso ser uma verdadeira bomba.
	O que est tentando dizer, me?
	Lamento, querido.  Ela se debruou sobre a mesa e bateu a taa contra a dele num brinde.  Vai ter de esperar at eu me sentir preparada para falar. Prometo que no vai ficar desapontado.

FIM

